sábado, 26 de abril de 2008

Sono, Cansaço e Outras Paradas Muito Loucas

Passei essa noite em claro para fazer o trabalho requerido para o curso de extensão sobre Intervenção Social de que tenho tanto reclamado. Por mais frustrante que ele tenha sido até agora (e aposto que hoje é ladeira abaixo de ruim), foi produtivo fazer este trabalho e ler os artigos.

Fiquei procrastinando ontem (1) o dia inteiro a respeito deste trabalho, e sempre que começava a ler, arrumava outra coisa para fazer. No caso, eu fui escrever para o blog. É um comportamento louvável, que muito enriquece minha vida intelectual, mas na dada ocasião não só era desnecessário como era absolutamente inútil, e estava me atrapalhando. Pode parecer uma atitude um tanto quanto esquizo pôr a culpa em um comportamento próprio ao invés de culpar a si mesmo. E é. Relevem.

Entretanto, uma certa hora da noite, depois de comer um pouco, comecei a jogar um joguinho que tenho instalado no computador: Little Fighter II. Grosso modo, é um jogo de luta de anões (2). Acredito que esta descrição deixe claro a inutilidade que era ficar jogando aquilo (3). Então, subitamente lembrei-me que tinha um trabalho por fazer. Não, “lembrar” não exprime o impacto que senti. Foi como se um tijolo tivesse sido jogado no poço de minha consciência, agitando as águas anteriormente tranqüilas. Tive um choque de realidade, não por causa do trabalho, mas por causa de minha atitude – passou por minha mente que comportamentos recorrentes são neurologicamente “marcados”, e tornam-se cada vez mais fáceis de se repetirem. “É assim que quero viver o resto de minha vida?” perguntei para mim mesmo. Respondi que “não” da forma mais enérgica possível, e pus-me a trabalhar novamente.

Foquei-me na leitura dos artigos recomendados (que até pareciam mais legíveis) e em escrever minha resenha de uma maneira que não lembro ter conseguido anteriormente. Fiz vários intervalos, mas nenhum maior que 45 minutos. Trabalhei por muito tempo.

E senti diferenças fisiológicas. Ao contrário do que ocorreu em situações passadas em que tentei permanecer acordado para estudar, não senti sono algum. Pelo contrário, fiquei mais desperto do que de costume; focava minha atenção com facilidade, e podia tranquilamente alternar as janelas do Windows entre um texto e outro, e depois para meu trabalho (4). O único comportamento disfuncional era minha leve falta de controle sobre minhas pernas. Quanto ao resto, meu maquinário mental funcionava a pleno vapor. Agora que terminei o trabalho, contudo, minha vigília e minha atenção esmaecem e desaparecem. Este estado de fraqueza que sinto agora lembra-me vagamente do acampamento de sobrevivência do qual participei quando era escoteiro sênior. Depois de dois dias apenas comendo pinhão e tomando água, não sentia fome, mas uma leve e persistente canseira.

Sei que, em situações extremas de privação ou esforço físico, as pessoas começam a delirar, como os corredores de longa distância que sentem uma estranha euforia após uma corrida especialmente dura, ou religiosos que sentem-se em êxtase religioso após uma semana ou mais de jejum. Neuroquimicamente falando, estes fenômenos são devidos aos neurotransmissores serotonina e dopamina (ou algum outro que eu não saiba. Não vou culpar meu cansaço pela minha ignorância), responsáveis por ativar as vias e centros relacionados ao prazer. Seria uma resposta adaptativa do corpo para “motivar” o pobre coitado correndo do leão há 4 horas e sem comer há 48 a seguir em frente ao invés de desmaiar por exaustão. Acho que o mesmo deve acontecer depois de muito tempo sem dormir (não é meu caso. Foram só 8 horas).

Bem, com licença. Vou dormir.




1. Ou hoje. Essa questão temporal fica bem bagunçada quando se vê o sol nascer e não se dorme.
2. Na verdade, desenhinhos cuticuti. Se cagando a pau, mas cuticuti ainda assim.
3. Mas anões se sovando é divertido, nonetheless.
4. Estou vendo gnomos agora.

Meu trabalho

Passei a noite em claro escrevendo este trabalho para o curso de Intervenção Social. Acho que cometi falhas que normalmente não cometeria, devido ao cansaço (que, aliás, nem é tão grande assim). Entretanto, acho que está bom o bastante para ser entregue. E mesmo que não estivesse, eu entregaria da mesma forma, por que não é uma disciplina, é só um curso, portanto o máximo que pode acontecer é eu não receber o certificado de participação. Enfim, gostaria de um feedback, se possível. E trabalho meu tem mais referência ao Maslow do que cerca tem chuchu.

Intervenção Social: Riscos, cuidados e possibilidades

Pode parecer redundante, ou até mesmo desnecessário para um trabalho final de curso, começar falando dos objetivos que foram perseguidos desde o começo até esta dissertação. “Intervenção Social: Promovendo protagonismo e bem-estar na juventude” é um título muito claro: buscamos, através de intervenções sociais, promover entre jovens (crianças e adolescentes) a prática de comportamentos assertivos, e que se alcance um bem-estar, seja físico ou psicológico, através de tais atos. Logo nas primeiras aulas, ficou claro que as referidas intervenções aconteceriam em um contexto bem diverso da universidade – em comunidades populares, com jovens provavelmente estigmatizados por sua classe social e cor de pele, e que alguns destes jovens talvez já tenham entrado em conflito com a lei. Os repertórios automáticos que nós, estudantes de graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul possuímos e aplicamos para as situações talvez não sejam apropriados neste meio ambiente. Para trabalhar em tal local e com estes jovens, é necessária uma atitude diferenciada e cuidadosa, tanto intrapessoal e teórica quanto interpessoal e prática.

Primeiramente, há que se considerar que são jovens. Mas o que isto significa? Pensando de forma objetiva, pode-se dizer que são jovens por que tem idades entre 10 e 16 anos, que isso significa que não são “senhores de si” perante a lei e que provavelmente são dependentes de alguém. Estas informações são úteis, e nos permitem observar a postura dominante em relação à juventude, de classificá-la segundo sua negatividade, o que ainda não chegou a ser: adulto, senhor de si, independente (Dayrell, 2003). Entretanto, elaborar um plano de intervenção social utilizando apenas estes dados como base teórica pode ser contraproducente, pois ao partir de dados que são comuns a maioria dos jovens brasileiros, deixa-se de lado as diferenças. Um garoto de 11 anos que mora em um bairro de baixa renda tem muito em comum com outro garoto da mesma idade que mora em um condomínio privado de classe média alta. Entretanto, as diferenças que existem entre os são provavelmente a parte mais importante de uma pesquisa em psicologia social. Relevá-las seria ignorar todo o contexto onde este menino foi criado, seu ambiente, sua cultura, seu espaço físico e seu tempo. Fazendo isto, corre-se o risco da intervenção ser mal-planejada, e de não conseguir apreender os modos pelos quais os jovens constroem suas experiências, fazendo com que todo o trabalho seja inutilizado.

Devido a limitação informativa dos dados quantitativos, os pesquisadores da área do desenvolvimento que lidam com intervenção social tem buscado metodologias mais qualitativas de pesquisa, que permitem a apreensão dos modos pelos quais as pessoas, no caso jovens, constroem suas experiências (Dayrell, 2003). Cada vez mais, a inserção ecológica (Cecconello & Koller, 2003) tem sido utilizada por pesquisadores que buscam uma maior inserção e compreensão dos contextos que estudam. O modelo bioecológico de Bronfenbrenner, que sustenta teoricamente a inserção ecológica, propõe que o desenvolvimento humano seja estudado através da interação de quatro núcleos inter-relacionados: o processo, a pessoa, o contexto e o tempo. Neste modelo, o processo é destacado como o principal mecanismo responsável pelo desenvolvimento, que é visto através de processos de interação recíproca progressivamente mais complexa de um ser humano ativo, biopsicologicamente em evolução, com as pessoas, objetos e símbolos presentes no seu ambiente imediato (Bronfenbrenner & Ceci, 1994; citado por Cecconello & Koller, 2003), sendo um modelo eficiente para realização de pesquisas contextuais, pois permite a integração das muitas variáveis inter-relacionadas no desenvolvimento humano. A inserção ecológica, como método de pesquisa, consiste na inserção no ambiente ecológico a ser estudado, com o objetivo de conhecer sua realidade e investigar as variáveis que ali atuam. Visitas freqüentes, observações, conversas informais e entrevistas são todos métodos válidos de coleta de dados. O ponto forte desta metodologia é sua alta validade ecológica, decorrente desta análise rigorosa dos dados.

Também deve-se levar em consideração que não existe apenas uma juventude monolítica, mas muitas juventudes, diversas entre si (Dayrell, 2003). Em contextos de pobreza material, também é possível que o pesquisador, de sua posição de sujeito suposto saber, considere que os jovens com quem irá trabalhar sejam “pobres coitados” dignos de pena, ou que são incapazes de uma independência maior (e seria irônico se tal erro fosse cometido por alguém interessado em promover o protagonismo juvenil), criminosos sem esperança de recuperação, ou, utilizando-se de uma visão demasiada otimista, esqueça que o contexto em que ele intervém envolve os participantes de seu projeto em crimes, e que talvez alguns deles tenham entrado em contato com a lei.

O último fator teórico que deve ser abordado é o conceito de protagonismo. Ao nos voltarmos para a etmologia deste termo, verificamos que protagnistés era o nome dado ao ator principal do teatro grego, ou aquele que ocupava o lugar principal em um acontecimento (Ferreti; Zibas; Tartuce, 2004). Com base nestas informações, podemos supor que uma intervenção que objetiva incentivar o protagonismo juvenil busca, em última análise, incentivar que os jovens apropriem-se e que sejam os personagens principais de seu próprio desenvolvimento. Este processo aconteceria nos diversos microssistemas em que o jovem vive, seja na família, na escola ou qualquer outro grupo social. Correndo o risco de dizer o óbvio, se há programas que visam estimular os jovens a serem assertivos, a tomarem em suas próprias mãos o seu crescimento, é razoável supor que eles não fazem isto naturalmente, pelo menos nas condições de vida próprias de seu contexto. Acredito que, se quem estiver fazendo esta intervenção não for sensível para as demandas das crianças e dos adolescentes envolvidos, o que acontecerá será a criação de uma nova relação de dependência do jovem, só que ao invés de ser dependente dos pais, dos professores ou do grupo de amigos, será dependente do programa ou do interventor.

Por fim, tal e qual um bom psicoterapeuta, o interventor deve sempre partir do pressuposto que o jovem tem um potencial para o crescimento saudável, mas não deve esquecer-se que a possibilidade de patologia e violência são reais (Maslow, 1968). Sem esta visão realista e crítica, todo o trabalho pode ser em vão.


Referências:
Cecconello, A. M. & Koller, S. H. (2003). Inserção ecológica na comunidade: uma proposta metodológica para o estudo de famílias em situação de risco. Psicologia: Reflexão e Crítica, 16(3), 515-524.

Dayrell, J. (2003). O Jovem como Sujeito Social. Revista Brasileira de Educação, No 24, 40-52.

Ferreti, C.J.; Zibas, D.M.L; Tartuce, G.L.B.P. (2004). Protagonismo Juvenil na Literatura Especializada e na Reforma do Ensino Médio. Cadernos de Pesquisa, v. 34, n. 122, p. 411-423

Maslow, A.H. (1968) Introdução à Psicologia do Ser (2ª Edição). Rio de Janeiro: Eldorado.

Melhores Músicas da História II

Hard Luck Woman - KISS

If never I met you
Id never have seen you cry
If not for our first hello
Wed never have to say goodbye
If never I held you
My feelins would never show
Its time I start walkin
But theres so much youll never know

I keep telling you hard luck woman
You aint a hard luck woman

Rags, the sailors only daughter
A child of the water
Too proud to be a queen

Rags, I really love you
I cant forget about you
Youll be a hard luck woman
Baby, till you find your man

Before I go let me kiss you
And wipe the tears from your eyes
I dont wanna hurt you, girl
You know I could never lie

I keep telling you hard luck woman
You aint a hard luck woman
Youll be a hard luck woman
Baby, till you find your man

Rags, the sailors only daughter
A child of the water
Too proud to be a queen

Rags, I really love you
I cant forget about you
Youll be a hard luck woman
Baby, till you find your man
Youll be a hard luck woman
Baby, till you find your man

Oh yeah, bye bye, so long, dont cry
Im just packin my bags, whoo, leavin you
Bye bye, bye bye, bye bye, baby, dont cry
I gotta keep on movin, yeah movin
Bye, bye my baby
Ooh, dont cry, lady, oh
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A música é boa, apesar da única coisa que apareça no vídeo seja as caras pintadas dos velhos do KISS. Mas eles cantam pra caralho.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Eu e as Neurociências

Se aplicarmos um teste de associação de palavras para uma pessoa qualquer, e o termo “Psicologia” aparecer, a resposta muito provavelmente será “Freud”, ou algo relacionado com um teórico clínico relativamente famoso.

Freud tornou-se famoso e importante por que, em sua época, a Psicologia e a Psiquiatria eram ciências com pressupostos epistemológicos e experimentais muito frágeis, e a prática de pesquisa consistia basicamente em observações e entrevistas – havia tentativas de pesquisas neuropsicológicas, tentando associar comportamentos com características fisiológicas, como a frenologia, mas pouco progresso se obteve por esta via.

Na época de Freud, devido a esta fragilidade científica, para que se obtivesse algum progresso, era necessário que algumas pessoas, baseadas em seus insights, formulassem teorias sobre o comportamento humano e as testassem, para ver se eram verdadeiras ou não. Como os métodos para verificar se as teorias eram falsas ou verdadeiras(1) naquela época não eram lá tão eficazes, muitas teorias opostas conviviam como igualmente corretas. Isso ocorre em menor grau até hoje(2), e explica em parte por que até hoje ainda estudamos a teoria freudiana clássica e outras similares.

Porém, mais de 100 anos após o nascimento da Psicanálise, a situação é bem diferente. Com os progressos das ciências, seja da Física, da Química, da Matemática, seja da Psicologia, da Farmácia e da Medicina, hoje existem métodos de pesquisa muito mais eficientes, e que produzem conhecimentos relevantes(3) de forma cada vez mais acelerada, para áreas distintas como psicoterapia, lingüística, políticas públicas e ciência básica(4). A intersecção destas disciplinas chama-se comumente de Neurociências.

Temos na faculdade pelo menos duas disciplinas sobre Neurociências logo nos dois primeiros semestres: Neuroanatomia Funcional Aplicada à Psicologia, e Fisiologia Geral Aplicada à Psicologia. Sinceramente, foi horror à primeira vista, pois não entendia nada do que os professores diziam, e quando estudava em casa, não era capaz de memorizar nenhum dos termos que lia (Córtex Órbito-frontal? Quem lembra de um nome desses na hora da prova?). Entretanto, no final da cadeira de Fisiologia, quando realmente vimos as relações entre o cérebro e os órgãos internos com os comportamentos humanos, percebi como o assunto era fascinante.

Meus conhecimentos do assunto ainda são bem rudimentares (não sei o que o Córtex Órbito-frontal faz), mas estou lendo o que posso da maneira que consigo sobre o assunto. Digo da maneira que consigo por que, como não tenho mais nenhuma cadeira para tirar notas boas, não preciso me forçar a entender o assunto, então, leio com calma, não entendo nada, mas vou lendo outros textos sobre o mesmo assunto, até que uma hora eu me sinta confortável o bastante para dizer que entendo.

Tenho um acesso relativamente fácil aos livros deste assunto. O Instituto de Ciências Básicas da Saúde da UFRGS mantém um curso de pós-graduação em Neurociências, e no Instituto de Psicologia temos o Laboratório de Psicologia Experimental, Neurociências e Comportamento (LPNeC), e já tive aula com professores destes dois órgãos acadêmicos (que estão intimamente ligados).

Porém, encontro alguns obstáculos significativos no estudo destas disciplinas. O primeiro é a falta de tempo livre para ler livros que não os que tenho que ler para a faculdade. O segundo é a tacanhice de muitos de meus professores, que preferem que estudemos teorias do século XIX (uma professora nossa diz que nós fazemos faculdade de História da Psicologia. A Psicologia atual a gente estuda depois de formado, trabalhando ou fazendo pós-graduação). As duas estão intimamente ligadas, pois se nos fossem dadas mais disciplinas neurocientíficas, não precisaria ficar fazendo tempo para ler sobre o assunto. Não é, na minha humilde opinião, a situação ideal, já que, apesar de ler sobre um assunto interessante, eu seria obrigado a ler o que o professor quer, e não o que eu quero, mas seria um pequeno progresso. O problema maior vem de outro lado, da política intrainstitucional da faculdade. Há dois ou três anos, quando decidiu-se reformar o currículo do curso de graduação em Psicologia, os professores foram convidados a apresentarem projetos para a nova estrutura curricular. Dois professores apresentaram um projeto que mudaria radicalmente a forma como as aulas seriam dadas para nós: as aulas presenciais seriam cortadas pela metade, teríamos tempo abundante para estudar por conta própria e não existiriam “disciplinas” propriamente ditas – teríamos tópicos para pesquisar a respeito, e contaríamos com a ajuda dos professores para tanto. Mas como isso seria bom demais para ser verdade, os professores que idealizaram este modelo pertencem ao Departamento de Psicologia do Desenvolvimento e Personalidade, e os professores dos outros departamentos, junto com os estudantes envolvidos no processo, vetaram esta idéia logo de cara. Como eu sei disso, e por que mataram uma idéia tão boa logo em sua concepção? Bem, conversei com um dos estudantes envolvidos. Segundo ele, o Desenvolvimento tem uma política de cooptação de graduandos tremenda, e que eles teriam mais poder de fogo ainda com este esquema. Isso é verdade? Infelizmente sim. Mas, para ser franco, todos os três departamentos do Instituto fazem isso – o Desenvolvimento é apenas o mais descarado. Os outros dois apenas fingem (mal e parcamente) que isso é eticamente errado, mas tentam cooptar estudantes pelegos para suas pesquisas igualmente. O cara que me contou isso está convicto de que fez o melhor para o curso – se mais alunos fossem para o lado do Desenvolvimento, haveria um desequilíbrio de forças dentro da unidade orgânica. Fico me perguntando se haveria mesmo. E se isso viesse a acontecer, por que os outros departamentos se importariam tanto? Talvez por que gostariam de que eles monopolizassem o Instituto (alguns professores já deixaram isso claro para nós), e preferiram manter-se presos ao passado, tentar fazer o galo parar de cantar do que correr o risco de perder poder. Mais uma vez, a política atrapalhou a ciência.

Mas, pelo o que sei, a história não parou por aí, já que os dois professores que falei continuaram envolvidos na reforma curricular. Um deles, meu amigo falou, só encheu o saco e barrou de todas as maneiras possíveis os trabalhos. O outro, pelo que percebo de suas atitudes, tentou salvar o que podia do projeto original. Propôs que as aulas presenciais ainda fossem reduzidas, e que mais tempo de biblioteca fosse disponibilizado, mas foi em vão. William James já falava sobre isso. Quando uma pessoa lhe falou sobre uma proposta de substituir as palestras na Escola de Medicina(5) por um “sistema de análise de casos”, ele disse: “Acho que você está inteiramente certo, mas seu sábio professor se rebelará. Ele sem dúvida prefere sentar-se e ouvir sua própria voz maravilhosa a guiar as inseguras mentes dos estudantes”. Dando um salto imaginativo não muito longo, aposto que foi isso que aconteceu aqui na gloriosa Universidade Federal do Rio Grande do Sul: a maioria dos professores prefere ficar se exibindo na frente da sala de aula, e a idéia de perder seu palco e seu publico cativo é aterrorizadora, e para que tal crime não seja cometido, dizem que “pelo bem dos estudantes” deve-se continuar dando horas intermináveis de aulas presenciais.

Mas devo dar o braço a torcer para estes professores: eles são bons no que fazem, pois conseguiram convencer quase todos os graduandos de Psicologia não só de que estão certos, mas que o departamento de Desenvolvimento e tudo o que fazem é coisa do “demônio” (que é comodamente chamado de “Lombroso”, considerando que luminares sapientíssimos como eles sabem que nem Deus nem o diabo existem). E as Neurociências em especial são o tridente do cramunhão para eles, por representarem um “retorno” à práticas de extermínio debaixo de uma roupagem moderna. Alguém lembra de uma certa nota de repúdio? E os professores conseguem fazer tudo isso sem perder a pose de tolerantes e progressistas. Fantástico.

Sinto que fugi um pouco do assunto, pois cai na enredada situação política da minha faculdade, que ligeiramente toca as Neurociências (não vai ser por causa dos meus professores que todas as máquinas de PET Scan do mundo vão ser destruídas). Mas o título desse post é “Eu e as Neurociências”, e estou diretamente implicado neste rolo que relatei. Portanto, tem tudo a ver com o post.

Sinto que as Neurociências, apesar da tacanhice de alguns, tem muito o que oferecer para a Psicologia. Ao contrário do que muitos temem, dificilmente a ressonância magnética irá substituir a psicoterapia – pois nada nunca irá substituir as relações humanas, nem a Psicologia se tornará uma “neurologia de segunda mão”. Como disse anteriormente, acredito que teremos cada vez mais Neurociências no currículo de Psicologia, mas este assunto não substituirá, apenas complementará e tornará mais rico o que aprendemos na faculdade. Acho que Freud aprovaria isto.






1. Relevem o “verdadeiro”, estudantes de Epistemologia e solipsistas.
2. Não é necessariamente negativo ou contraproducente. Bem pelo contrário, acredito que quando mais teorias diversas, maior número de pesquisas sobre assuntos diversos são realizadas, e maior progresso se alcança.
3. Em sua maioria. Não subestimem a capacidade dos cientistas de pesquisarem bobagens. Nunca.
4. Na visão tradicional de ciência, a pesquisa em ciência básica não tem um foco específico: pesquisa-se sobre um assunto por que pouco se sabe a seu respeito, não por que seja necessário fazer uma intervenção. Pesquisas em ciência aplicada, por outro lado, focam-se em problemas específicos, com o intuito de resolvê-los. A ciência básica fundamenta a ciência aplicada, e esta dá idéias de pesquisa para a primeira. Na realidade, não é bem assim que funciona, pois a coisa é muito mais complexa. Falarei disso outra hora (se me der na telha).
5. Lembre-se que a formação de William James foi toda na área da Medicina, já que em sua época não existiam departamentos de Psicologia nas universidades dos Estados Unidos.

Eu posso sonhar, né?

Eu devia ganhar créditos complementares por este blog.

Primeiros Erros

Encontro-me sentado defronte ao computador, lendo artigos que pouco me interessam, do curso de extensão em Intervenção Social em que de bom grado me inscrevi (era de graça). Estou lendo os artigos por que preciso fazer uma resenha, dissertação ou coisa do gênero de três a cinco páginas sobre pelo menos três artigos, e por mais que leia, nada entra em minha mente. E é para amanhã.

Inscrevi-me neste maldito curso na esperança de aprender mais sobre Psicologia Positiva, que constava como um dos assuntos a serem vistos na súmula. Realmente, tivemos uma aula de Psicologia Positiva, mas foi tão superficial que eu poderia ter dado uma aula melhor, sem necessidade de fazer mestrado e doutorado.

Tinha o resto do assunto, mas é muito chato, e as discussões a respeito dele foram, até o momento, igualmente maçantes. Talvez elas foram boas para os outros participantes, mas para mim não passaram de amontoados de lugares comuns e expressões indignadas sobre a situação social no Brasil (palmas para a mulher que comentou sobre o caso Isabella, dizendo que, para ela, a única solução era “matando”. Ainda bem que ela não é ministra da segurança). E a experiência me diz que amanhã a coisa vai ser pior ainda, pois serão as apresentações dos trabalhos dos alunos.

O que eu não faço por créditos complementares. Quem dera eu tivesse sido mais sábio, e tivesse me inscrito no curso de extensão que outros colegas meus estão fazendo, que é só assistir filminho e debater depois. Naturalmente eu me esquivaria dos debates, mas isso são outros quinhentos.

Constatações

Cada artigo científico que leio sedimenta minha crença de que a Academia é o penúltimo refúgio para aqueles que não sabem escrever direito.

O último refúgio é a poesia.

A Vontade para Acreditar

Em uma pesquisa realizada por cientistas do Instituto Max Planck, na Alemanha, foi constatado que muitas das decisões atribuídas ao livre arbítrio podem ser formadas vários segundos antes de o cérebro tomar consciência delas. No teste, elaborado por cientistas do Instituto Max Planck para Cognição Humana e Ciências Cerebrais, de Leipzig (Alemanha), pessoas tinham de decidir livremente por apertar um de dois botões em um controle. Ao mesmo tempo ficavam olhando uma seqüência de letras projetada numa tela, que não deveria influir na decisão. Os voluntários tinham apenas de dizer que letra estavam observando quando finalmente decidiam qual botão apertar. Comparando o momento em que as pessoas se diziam conscientes de suas decisões com padrões de atividade cerebral registrados no aparelho de ressonância magnética, os cientistas tiraram sua conclusão.

Fiquei pensando bastante a respeito desta pesquisa. O ser humano sempre se perguntou se ele seria livre, ou se suas ações fossem pré-determinadas por causas outras, sendo sua tomada de decisão mera ilusão. Será esta pesquisa a resposta definitiva para a questão? Acredito que não, pois que sua metodologia é bem questionável. Por exemplo, não é possível generalizar as conclusões desta pesquisa para comportamentos mais complexos, como o estilo de vida adotado, posto que o comportamento medido pode facilmente cair em um automatismo. Entretanto, não há nenhuma pesquisa que realmente confirme a existência da Vontade. Há munição dos dois lados do debate, experimentos solidamente desenvolvidos mas todos igualmente inconclusivos.

Fico então pensando se a auto-determinação não passar de um mito. Toda a história, todas as invenções, todas as vidas, todos os amores e ódios que existiram, todas as baladas heróicas, toda a humanidade: qual seria o sentido de tudo? Seria tudo mero efeito colateral de reações neuroquímicas extremamente bem sucedidas, que foram capazes de ditar o rumo da raça humana como a mais poderosa sob a face da Terra. Tudo é perfeitamente explicado, mas se não podemos decidir como vivemos, por que questionamos se realmente escolhemos? E por que nos sentimos indignados ou tristes quando nos dizem esta dura verdade, que não somos senhores de nós mesmos?

Da mesma forma que Viktor Frankl não viveu em função de seus mecanismos de defesa e reações de oxidação, não vivo em função de minhas sinapses e neurotransmissões. Pode ser que eu seja um autômato, movendo-se de forma errática e previsível pelo mundo, mas escolho acreditar que dentro de mim, há uma pequena centelha de fogo divino, de brilho fugaz, facilmente dominada pelo hábito e pelas pressões do mundo, mas sempre capaz de vencer no final, e que eu posso escolher meu destino.

Para não dizer que não falei de blogues

Mais uma vez, quebrei o recorde de negligência blogueira: 9 dias sem atualizações.

Justifico meu comportamento, pois estes nove dias foram bastante cheios de tarefas por fazer. Aliás, ainda tenho muito o que fazer. Tentarei, entretanto, equilibrar as atualizações com minhas tarefas cotidianas.

É um equilíbrio bem delicado.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

As Provações da Faculdade VI

Acabei de terminar o relatório de Processos Grupais. Isso quer dizer que por uma semana não terei que me preocupar com escrever relatórios. Ah sim, a próxima observação de grupo é amanhã.

Fiquei satisfeito com o trabalho que fiz, de um modo geral. Entretanto, fico com a sensação de que algo está faltando, que deveria ter posto mais alguma coisa. Como sempre tenho essa sensação, mesmo antes de publicar alguma coisa aqui no blog, geralmente ignoro-a.

Como já disse, fiquei satisfeito com o relatório. Consegui, partindo dos fragmentos que anotei durante a observação, tecer uma trama coerente, e identifiquei padrões grupais observando apenas indivíduos. Não pretendo falar muito aqui sobre o grupo que observo, pois prometi o mais absoluto sigilo sobre as reuniões (fora do relatório, não posso dizer nada do que aconteceu lá. Não, não estou observando maçons e não, ninguém comeu a minha bunda). Entretanto, sinto-me receoso de não ser tão bem avaliado neste trabalho por que eu não me ative aos autores preferidos do professor.

Pelo o que entendi das aulas, e pelo o que os meus veteranos que já fizeram essa cadeira dizem, o professor quer que nos pautemos nas observações pelos autores dele (Lacolla, Lapassade, Bion, Pichon-Riviere), e, caso consigamos, podemos encaixar alguma coisa de um outro teórico que nos agrade, mas de preferência isso deve ser secundário.

O fato pelo qual meu relatório me agradou foi por ter sido coerente, tanto internamente quanto em relação a mim. Usei Lacolla e Bion como referência, além de um texto escrito pelo próprio professor, mas pautei-me principalmente por teóricos existencialistas, como Frankl e Maslow. Além disso, utilizei-me da filosofia e um pouco de teologia, citando epicuristas, filosofia budista e fazendo uma certa comparação de uma situação do encontro com a parábola do filho pródigo. Estas teorias que utilizei tem uma coisa em comum: são individualistas, ou em palavras mais exatas, focam-se mais em comportamentos individuais do que grupais. Consegui transformar os retalhos individuais em um trançado coerente do ponto de vista do grupo, e pessoalmente, achei isso bem legal. Mas não sei se o professor e os monitores irão gostar disso.

Um veterano meu disse que, em um relatório, ele fez uma análise dos fatos através da teoria de Foucault. Segundo ele ficou bem bacana. Mas o máximo que o monitor corrigindo fez foi notar que ele usou um teórico diferente. Como se apontasse um detalhe no bolso do meu casaco (como uma sujeira). De preferência, temos que usar aqueles autores, e quanto menos usarmos outros, melhor.

Uma outra veterana, incapaz ou pouco disposta a usar Lacolla para analisar por que Fulano coçou o nariz na hora que coçou, preferiu fazer uma análise behaviorista dos fatos. Tomou um D como nota final e repetiu. Devo admitir que corro o mesmo risco.

Fazer isso é o equivalente a uma castração intelectual - e por mais que os lacanianos ressaltem a importância da castração pelo pai da relação mãe e filho, ser obrigado a pensar como meu professor pensa não é nem produtivo, e nem muito menos bom. Claro, pode ter alguém que goste das teorias utilizadas (os monitores pelegos, por exemplo), mas isso não é válido para todos (minha veterana com certeza, e eu talvez). Tomar a atitude que o professor toma nessa aula equivale a dizer "vocês podem seguir qualquer teoria, desde que seja a mesma que a minha". Mas não deixa de ser hilário que são justamente os professores que mais criticam Henry Ford os que mais o imitam.


E eu não vou nem entrar no mérito do tempo que eu perco fazendo relatórios em que eu poderia estar lendo.

As Provações da Faculdade V

Quase acabando. Falta só fazer a síntese do relatório (a parte que o professor lê. O resto ele deixa pros monitores pelegos). Até já consegui encaixar uma citação "teacher-friendly"!

terça-feira, 15 de abril de 2008

As Provações da Faculdade IV

E recomeça o sofrimento.