sexta-feira, 7 de março de 2008

Bixos

É engraçado ver como a entrada da turma de calouros muda completamente a dinâmica social que estávamos acostumados do Instituto de Psicologia. Primeiro, por que eu deixo de ser bixo para virar veterano, e aquela auto-imagem de ser "verde" no curso vai se esvaíndo, mas deixando no lugar uma sensação de ser um impostor, que não merece ser chamado de "veterano".

E segundo, por que são 40 caras novas na "Escolinha de Psicologia do Titio Lacan" que é nosso instituto. 40 só de Psicologia, por que temos mais um curso completamente novo, Fonoaudiologia, e suas 30 bixetes.

Hoje efetivamente começaram as aulas obrigatórias (minha primeira aula foi a infâme Processos Grupais I). Não foi o primeiro dia de aula dos bixos, pois eles tiveram que comparecer ao mal-falado Seminário de Introdução à Psicologia, mas hoje foi a primeira vez que pude observá-los nos intervalos das aulas. É um sopro de vida nova ver o que eles estão lendo e como estão reagindo: já conheço as minhas reações para as disciplinas oferecidas por cada departamento, já conheço as reações dos meus colegas e já mais ou menos sei o rumo que nossas discussões tomam. Nada disto acontece com os bixos. Tirando aquele um que outro que fez um pedaço do curso em outro lugar, são todos realmente "greenhorns" (iniciantes) nos verdejantes campos da Psicologia, e, tirando aquele um que outro que já fez algum outro curso na UFRGS, são todos filhos recém-nascidos da Grande Mãe URGS. Eles não estão condicionados como nós estamos, e as reações deles são (eu acredito) em sua maioria mais espontâneas. Claro, admito que já fizemos a cabeça de vários deles falando bem ou mal de alguns professores, disciplinas e/ou linhas teóricas (eu ainda não falei para nenhum deles como a Psicanálise fede a esterco de vaca), mas isto leva algum tempo. No momento, eles não foram subjetivados enquanto estudantes de Psicologia (o enquanto é obrigatório nessa oração).

Gosto de chegar de mansinho, e ver sobre o que eles estão falando. Segundo uma das bixetes, eu tenho até uma cara especial para isto. Pergunto o que estão achando das aulas, se estão sendo ruins como foram as nossas um ano atrás. Isto fica mais divertido ainda por que somos os primeiros veteranos do novo currículo. Os nossos veteranos podem dizer como foram as cadeiras antigas que foram modificadas do currículo antigo, podem dizer como foram os veteranos deles nessas mesmas cadeiras, mas não podem dizer como foram as nossas. Somos a "turma coringa do baralho", pois ninguém pode prever no momento como as coisas vão sair conosco. É barbada dizer que no currículo antigo 90% dos graduandos virava ou psicanalista lacaniano ou psicólogo social, e que só 10% ia para o Lado Desenvolvimento da Força Psi. Isso é bem diferente conosco, pois a estrutura do curso de graduação foi toda alterada. Isso se estende em menor grau para nossos bixos, mas podemos mais ou menos prever o quê eles terão de encarar na grande maioria das disciplinas (exceto aquelas que foram devidamente remodeladas graças às inúmeras calúnias por nós proferidas).

Com a Fonoaudiologia, o território é ainda mais desconhecido, pois não é só um currículo novo: é um curso inteiro feito do zero, e que não "pertence" apenas à Psicologia, pois eles têm aulas em quase todos os campi da UFRGS. Posso dizer com um grau de certeza bem elevado que eles vão se foder mais do que a gente com o constante remodelar e alterar das disciplinas, e que eles (elas, aliás) vão forjar a personalidade inerente ao curso durante os próximos 4 anos de faculdade. Elas são ainda mais interessantes de bater papo: é um curso que só tem quase mulher, 28 contra 2 homens, sendo que um tem namorada, o que já torna tudo muito mais interessante pra muito cueca por aí, e que cujo conteúdo está numa intersecção da Psicologia com a Odontologia (a outra unidade orgânica envolvida na criação do curso). Com certeza, o curso de Fonoaudiologia terá uma personalidade diferente de Psico e de Odonto, mas vai ter elementos dos dois. Um dos estudantes de Fono (homem mesmo) já procurou o DCE para ver como se faz para criar um Diretório Acadêmico para o curso bebê. Sugeri que o nome seja Centro Acadêmico de Fonoaudiologia - CAFONO, e que ele apareça na próxima reunião do DAP para ver os detalhes burocráticos dessa indiada que eles estão planejando. Pretendo, sempre que possível, bater um papo com os Fonos, apesar de suas aulas serem de manhã e nem sempre no Campus Saúde. Gosto de gente nova, tanto do meu curso quanto de outros cursos, por causa da variedade de idéias novas que surgem com eles. Quase todas estas idéias invariavelmente irão morrer, asfixiadas pelo academicismo e pelas idéias que mandam agora por lá. É melhor aproveitar e falar com estes bixos cedo em seu primeiro ano, antes que o genocídio mental comece.

Em 2009 está prevista a criação do curso de Serviço Social, pelo Departamento de Psicologia Social e Institucional. Daí a coisa vai ficar bem mais interessante.

...

Não, eu não vou escrever um post sobre atualizar o blog :)

quarta-feira, 5 de março de 2008

Um mistério resolvido

Aqui em casa, toda vez que entrava na cozinha e olhava para o armário da despensa, sempre via duas formigas, daquelas pretas e grandes. Imaginava "devem ter achado comida" e esquecia do assunto. Hoje confirmei de uma vez por todas por que elas estavam sempre lá. Como o preparo da potcheca para o passa ou repassa com os nossos bixos hoje precisava de açúcar, e por eu ser o que mais perto mora da faculdade, pediram gentilmente que trouxesse um pouco de açúcar de casa. Como tem pelo menos 3 kg no armário, achei que não seria problema. Daí que eu descobri que um dos sacos estava aberto, e os grãozinhos brancos se esparramaram por todo o armário. Ajudei uma microcivilização a se desenvolver. Ainda tem uns restos por lá, mas eu vou deixar para as formigas, que elas vão limpar muito melhor do que eu iria. Isto é o que se chama em biologia de mutualismo.

domingo, 2 de março de 2008

Foco

Vou fazer um pequeno exercício, e tentar definir quais são os interesses abarcados por este blog.

Originalmente, o Espadachim Cego foi criado para ser um diário meio emo, em que eu ficaria falando de mim mesmo, como eu sofro, como sou diferente e todos me odeiam e como eu odeio eles de volta. Bem, tirando a parte emo (e a de que eu tenho um certo grau de misantropia), é bem verdadeiro o que falei, pois o blog é sobre minha pessoa. Falo também das minhas aventuras, no meu próprio apartamento e no infinito e além dele, como relatos de viagens e aulas e coisas do gênero.

Então, comecei a falar de assuntos que, apesar de se relacionarem a mim em última análise, são muito mais científicos do que egocêntricos. As ciências abordadas são variadas, mas sempre abordo a parte humana delas. Psicologia, Sociologia, Ciências Políticas e Biologia. Portanto, o blog também é sobre Ciências Humanas, e um pouco sobre Ciências Naturais (tratando do lado animal do ser humano, nevertheless). Mas nada impede que eu comece a falar de Engenharia Elétrica um dia desses, considerando que um colega meu é formado nisso e faz mestrado em Informática (que tem tudo a ver com Engenharia Elétrica, apesar de não parecer).

Mas também levantei questões filosóficas, sobre qual seria o caminho correto a seguir, como devemos estudar o mundo e com que meios. Resumindo: falei de Ética, Epistemologia e Lógica. E devo ter falado bastante de Ontologia nos posts quasi-científicos.

Mas além destes assuntos sérios, também falo de bobagens como o Reino das Formigas, que frequentemente organiza raid parties (incursões de ataque, algo bem diferente de rave parties) na minha cozinha e outras bobagens que parecem ter sido digitadas com a bunda por alguém que acabou de tomar bala (ácido ou chumbo, tanto faz). Falo também de Kung Fu, Espiritualidade e Transcendência (que são coisas sérias, a propósito).

Enfim, o foco deste blog tem a mesma amplitude que meus interesses. E é tão aleatório quanto.

O Jogo Geográfico e Econômico da Política

Política é uma coisa engraçada. Engraçada por que, coisas que por si só não tem grande valor, em certas circunstâncias de relevância política, tornam-se importantes também. E coisas que são importantes em um sentido pragmático tornam-se mais importantes ainda devido ao seu simbolismo.

Tomemos como exemplo as prévias para candidato à presidência dos Estados Unidos da América. Nas prévias, os candidatos dos dois principais e mais poderosos partidos, o Republicano e o Democrata, são escolhidos em algo que poderia se chamar de pré-eleições, e que no fim acabam servindo como um termômetro da popularidade dos candidatos escolhidos. Mas a coisa não é lá muito simples, pois há dois processos diferentes de votação nas primárias: as votações primárias em si, em que eleitores sem qualquer filiação política podem votar em qual candidato eles gostariam de ver concorrendo para a vaga na Casa Branca, e os Caucus, que envolvem votações com apenas membros do partido. Mas apesar disso, não são os eleitores quem decidem diretamente quem ganha: são os delegados de partido. Os delegados de partido são obrigados a votar no mesmo candidato que seu estado votou, portanto, se nas prévias 50% dos eleitores votaram no candidato X, 50% dos delegados vão para X. Só que existem os Superdelegados, delegados comuns que exercem cargos executivos importantes no partido, como presidente estadual. Eles podem votar em quem eles quiserem, não importa o que os eleitores do seu estado decidam. Last but not least, cada estado decide quando as prévias e os caucus serão realizados.

Só as informações contidas no parágrafo anterior são suficientes para dar um nó na cabeça de qualquer um, mas são apenas os dados quantitativos das prévias. Os dados qualitativos complicam o entendimento e o decorrer das prévias de maneiras muito piores.

Como disse antes, algumas coisas ganham mais importância do que realmente deveriam. Nesta eleição, as prévias começaram no estado de Iowa - que possui algo em torno de 65 delegados para os dois partidos, o que não é muito expressivo numericamente. Mas, por ser a linha de largada da eleição, ganhar aqui é fundamental. Hillary Clinton, que antes de toda a inana começar era considerada a favorita dos democratas, tomou um tufo em Iowa e terminou em terceiro lugar - começou com o pé esquerdo. No outro lado da moeda, eventos importantes por si só ganham muito mais importância por causa de seu simbolismo. Foi o que aconteceu com a Super-Terça. A terça que virou super foi 5 de fevereiro - o dia que mais de 20 estados decidiram fazer suas prévias eleitorais, colocando em jogo milhares de delegados. No lado democrata, quem levasse a Super-Terça para casa levava a candidatura para a presidência também - ou pelo menos, sairia tão na frente que seria difícil alcançar. E no fim, o que aconteceu foi um empate técnico, que levou os pré-candidatos a terem que encarar uma luta muito mais prolongada. Para Hillary Clinton e seus aliados, isso foi um banho de água fria - e um tempero amargo para os salgadinhos caros que tinham sido comprados para antecipar sua vitória sobre Barack Obama, o azarão deste ano. Já para Obama, isso foi muito vantajoso, pois mostrou para os eleitores indecisos que valia a pena votar nele, pois ele tinha uma chance real de ganhar. E depois da Super-Terça, dos 11 confrontos democrátas, ele levou todos. Foi uma verdadeira surra de pau mole, que deixou Hillary & Friends desmoralizados e desmotivados. Afinal, quem vai votar num pré-candidato que já saiu perdendo?

A última prévia/caucus que aconteceu foi no Hawaii e no Wisconsin, em 19 de fevereiro, este último meu estado de adoção. Em termos práticos, o Wisconsin não é grande coisa no plano político americano: população pequena, majoritariamente de colarinho azul (trabalhadores assalariados da indústria) e de baixo poder aquisitivo. Em outros anos, ninguém daria a mínima para o resultado do Wisconsin, mas neste ano ele foi crucial, pois eleitores de colarinho azul são parte importante da base de votantes de Mrs. Clinton, e perder ali deixaria claro que este setor importante está migrando para Obama. Além disso, ela precisava mostrar que era capaz de ganhar de Obama e que ainda podia lutar pela cadeira da Casa Branca. Tomou outro tufo, e ficou 17% atrás de Obama.

Depois da Batalha do Wisconsin, uma trégua: as próximas prévias seriam apenas em 4 de março, em Ohio, Rhode Island, Texas e Vermont. Apesar de Ohio e Texas serem os mais importantes em números de delegados para os democratas (161 e 228, respectivamente), os estados de Vermont e Rhode Island (23 e 32 delegados, respectivamente) são considerados importantíssimos. Primeiro, por que se Hillary ganhar lá, ela mostra que a luta para ela não está perdida ainda. Mas há mais por trás disso: Rhode Island é tradicionalmente um reduto democrata nas eleições gerais, e principalmente, é um reduto de eleitores do clã Clinton. Perder ali é perder toda a credibilidade para Hillary. Complicando um pouco mais as coisas neste 4 de março, o sistema de pré-eleições no Texas é provavelmente o mais bizarro dos EUA inteiros, por ser uma mistura de prévias com caucus que ninguém entende, exceto, como disse uma colunista do The New York Times, quem tem doutorado em Física Quântica.

As próximas prévias são consideradas a batalha final de Hillary por muitos, ou no máximo, sua última chance de ganhar alguma coisa e mostrar que tem força para concorrer pela presidência.

Outro fenômeno importante que se tornou mais importante ainda é a arrecadação e administração de fundos para a campanha - Obama quebrou recordes de arrecadação e sua campanha é um exemplo de dinheiro bem investido, ao passo que Hillary, que arrecadou bastante mas ainda assim muito menos do que Obama, tem sido extremamente criticada pelas constantes cagadas da coordenação de sua campanha, que chegou a gastar em um mês 1200 dólares em rosquinhas. Além dela sofrer as conseqüências práticas de ter menos dinheiro, ela tem que responder perguntas dos eleitores do tipo "como posso confiar que a senhora vai administrar bem a economia do país se não consegue administrar a própria campanha decentemente?"

A questão do dinheiro arrecadado também traz outros problemas à reboque, como um trato feito entre o candidato quase certo à presidência John McCain e Obama de usarem verbas federais de campanha e limitarem os gastos. Na época, valia a pena para Obama vender uma imagem de político ético, pois tinha pouco dinheiro à disposição. Mas agora que ele tem pelo menos mais de 50 milhões de dólares à sua disposição, parece ser um tiro no pé. McCain, que apesar de popular tem pouco pila vai encher o saco de Obama com certeza se ele não cumprir com sua palavra.

E, indo na direção contrária do fenômeno que descrevi no primeiro parágrafo, eventos importantes pragmática e simbolicamente, dentro de certos contextos deixam de ser tão importantes quando deveriam ou costumavam. Por exemplo, Hillary Clinton levou as prévias de New York, New Hampshire, New Jersey e California - 281, 121, 127 e 441 delegados respectivamente, e que juntos são os estados que mais representam os EUA - tanto dentro do país quanto fora. E o fato dela ter ganho nestes importantes estados perdeu quase toda sua importância, porque Obama ganhou em todos os outros! O coordenador da campanha de Hillary, depois de uma das 11 derrotas que ela sofreu, frequentemente vinha falar ao público que o estado recém-perdido não representava os eleitores dos EUA - fato que virou a piada dos "40 estados que não representam os eleitores dos EUA".

Há muitos outros fatores na política, especialmente nos EUA, que influenciam os eleitores, mas são demais para um post só. Talvez outro dia eu fale mais sobre isso.

Minhas Aulas na Faculdade (Parte 5)

Como amanhã finalmente começam minhas aulas, acho que agora é uma boa hora para falar das minhas expectativas para com elas. Provavelmente as piores expectativas que tenho serão piores do que espero, e as melhores me decepcionarão. No final do semestre, farei uma análise comparando o que esperava das aulas com o que elas realmente foram.

Terceiro Semestre

Psicopatologia I - Obrigatória
Preview:
Esta cadeira vai ter um viés extremista e unilateral bem psicanalítico, e portanto previsível. Aposto que 90% dos meus colegas vão detestar estas aulas, mas 85% vão arranjar uma desculpa outra para este desgostar que não seja "a aula é realmente uma merda e sou sincero o suficiente para admitir". Garanto que vou me estranhar com a professora. E muitos colegas de arrasto também.

Processos Grupais I - Obrigatória
Preview:
Antigamente, esta cadeira se chamava "Dinâmica de Grupo". No currículo novo, mudou de nome, mas manteve o professor e a controversa metodologia. Esta é uma cadeira divisora de águas segundo muitos de nossos veteranos - e ou se ama as aulas com todo o coração ou se odeia até a última fibra do ser. Outra coisa que ouvimos falar muito é que o professor age como se não tivéssemos outra aula para atender que não seja a dele, pois passa relatórios e mais relatórios, um mais fodido que o outro. Além disso, ele é grosso com os alunos, de acordo com alguns veteranos (que provavelmente odiaram a cadeira, e talvez tenham uma visão muito unilateral dos fatos). De um destes veteranos recebi a sagrada tarefa de chinelear sempre que puder as aulas - ele fez isso e, nas próprias palavras, comprou uma nota B, mesmo sabendo que merecia um A. Considerando minhas experiências anteriores com grupos vivenciais, tenho a impressão de que não vou gostar desta aula. Mas veremos.

Processos Institucionais - Obrigatória
Preview:
Tirando o fato de que esta era uma cadeira do quarto semestre, e que ela foi transferida para o terceiro semestre por uma cagada de comunicação com o professor de Psicofarmacologia, não tenho maiores detalhes desta disciplina. Se conheço bem minha faculdade, esta cadeira vai ser uma "Psicologia Social III", só que com outro nome, e portanto menos sincera. Aposto que vai ser mais uma aula de pura encebação, cheia de discussões vazias (que contradição) e discursos politicamente corretos e anarquistas (de quintal) sobre as instituições. Bleh.

Estatística Aplicada à Psicologia - Obrigatória
Preview:
Matemática. Um pouco de solidez neste mundo de espelhos e fumaça que é a Psicologia. Acho que vou ter que sofrer um pouco, pois sinto que minhas habilidades matemáticas estão meio enferrujadas, mas acredito que, ao contrário da minha turma, vou gostar das aulas.

Seminário de Pesquisa em Psicologia - Obrigatória
Preview:
Mais um daqueles seminários integradores. Aqui estou junto com minha turma, e não tenho grandes expectativas de que esta seja uma aula produtiva. Ainda assim, como tivemos uma experiência com seminários bisonhos no ano passado, talvez seja diferente este ano. Em todo caso, vou ter sempre um livro a mão caso a aula seja insuportável demais.

Prática de Pesquisa em Psicologia - Obrigatória
Preview:
Na verdade, ninguém se matriculou nesta disciplina, por ordem da COMGRAD, mas vamos ter que participar de um grupo de pesquisa existente no Instituto. De certa forma, é uma cadeira eletiva, já que quem escolhia o grupo eram os alunos - apesar de TEREM QUE escolher. Promete ser um tipo de atividade que nunca fiz antes: fazer uma pesquisa e apresentar o resultado em um congresso. Boas expectativas a respeito dessa.

Teorias da Personalidade - Obrigatória
Preview:
Na minha opinião, a obrigatória que mais promete dar certo este semestre, pois seu assunto são as teorias da personalidade, provavelmente mais as que já conhecemos, mas teremos mais teorias de outros ramos que não conhecemos tão bem. Isso é muito bom. Mas a chance de dar errado e ser uma aula de bosta também é grande. Como sempre na Psicologia.

Esquizoanálise - Eletiva
Preview:
Lembram-se que eu disse neste mesmo blog que eu não iria fazer esta cadeira? Pois bem, menti. Vou fazer. Ou melhor, vou ouvir. Pretendo dar umas passadas nas aulas presenciais e participar como aluno ouvinte. Desse modo, posso aproveitar o conteúdo se for bom sem me foder com as notas. E se não gostar do assunto, não preciso mais dar as caras.

Psicologia Humanista - Eletiva
Preview:
Apesar de eu ter sido o maior campeão para a realização desta cadeira, não espero grande coisa. Primeiro por que entendo do assunto mais do que meus colegas, e segundo por que a Psicologia Humanista é, até onde pude analisar, muito parecida com a Esquizoanálise. Claro, há muitas diferenças gritantes e importantes, mas ambas provêm do mesmo antro de psicólogos afrescalhados que gostam de problematizar as coisas. A chance das aulas caírem em chatíssimas discussões teóricas sobre o sexo dos anjos é grande, apesar do potencial que o assunto tem de ser bacana. Outro problema é que, por abordar muitas linhas de Psicologia Humanista diferentes (entre elas a Psicologia do Ser, yay!), o conteúdo vai ficar meio diluído.

Terapia Cognitivo-Comportamental - Eletiva
Preview:
Se os esquizoanalístas e os psicólogos humanistas vêm da Frescolândia, os Terapeutas Cognitivos-Comportamentais vêm do Deserto de Skinner, e são pragmáticos e avessos à frescuras (em sua maioria). Uma cadeira que promete ser mais positiva do que negativa, mas que mesmo assim não me traz grandes expectativas. No início da faculdade, TCC era o assunto que mais me interessava. Ainda me interesso, mas bem menos. Veremos como vai ser.

Bioquímica Aplicada à Psicologia - Eletiva
Preview:
No momento, por causa de colisão de horários com Psicologia Humanista, não pretendo cursar esta cadeira. Mas, se PH mudar para um horário à noite como muitos dos interessados pediram, eu faço. Caso contrário, PH é prioridade. Em todo caso, se conseguir cursar Bioquímica, acredito que vai ser uma das aulas mais instigantes e fierosas, por assim dizer, pois tenho muita dificuldade para entender química. Mas gosto de desafios e tenho quem me ajude a entender essa ponhoca.

sábado, 1 de março de 2008

Minhas Próprias Teoria X e Teoria Y

Douglas McGregor, importante teórico no campo da Administração (e em menor grau, Psicologia), elaborou dois conjuntos, que chamou de Teoria X e Teoria Y, distintos e antagônicos de suposições sobre o comportamento dos trabalhadores, as quais servem como base para qualquer teoria de organização e liderança:

Teoria X - As organizações partem do pressuposto de que as pessoas têm aversão ao trabalho e à responsabilidade, preferindo ser dirigidas e, por isso, devem ser controladas e motivadas pela coação, pela punição, pelo dinheiro ou pelos elogios. Estes pressupostos correspondem à concepção mecanicista dos trabalhadores utilizada pela Escola Clássica e levam as organizações a colocar a ênfase na satisfação dos fatores higiênicos definidos por Frederick Herzberg.

Teoria Y - Parte-se da hipótese de que as pessoas são criativas e competentes e consideram que o trabalho é tão natural como a diversão ou o descanso. Assim sendo, sob condições corretas desejam trabalhar, daí que é fundamental proporcionar-lhe condições para o seu desenvolvimento pessoal. Estes pressupostos constituem a base da chamada Administração Participativa.

Os parágrafos anteriores foram copiados na cara dura deste site aqui.

Toda vez que me vejo participando de um trabalho em grupo, como a organização do trote (que vai começar segunda-feira), vejo-me ponderando minhas próprias teorias, W e Z, sobre o comportamento e motivação de meus colegas, que são apenas mais específicas do que a X e a Y.

Na Teoria W, as pessoas, quando trabalham em grupo são passivas, e esperam que outros dêem o ímpeto inicial para tudo, e deixam sua parte do trabalho para outros tanto quanto for possível; são facilmente empolgáveis para qualquer coisa, adoram brainstormings (seções de criatividade), e têm maior tendência para achar tudo ótimo, mas quando as dificuldades (ou melhor, o trabalho em si) começam a aparecer, elas logo desistem.

Na Teoria Z, as pessoas, quando trabalham em grupo são pró-ativas, e tomam a iniciativa sempre que necessário e/ou possível, fazendo sua parte do trabalho e até mais; são céticas quanto às qualidades das idéias, preferem trabalho concreto à conceitualização puramente abstrata, e apesar de pessimistas, são persistentes em seu trabalho, apesar de qualquer dificuldade que possa aparecer.

Como alguém que estuda alguma Ciência Humana pode perceber, não são teorias exatamente criativas, já que sofreram influência de teorias clássicas como a da transferência de responsabilidade social (não é esse o nome próprio, mas é exato o suficiente), e um pouco da Psicologia do Ser de Abraham Maslow (esse é figurinha batida por aqui), sem falar nas próprias Teorias X e Y. Também não são teorias bem acabadas, pois este post é apenas o primeiro esboço destes meus pensamentos e observações da interação da minha turma da faculdade e de outros grupos que participo.

Como o próprio McGregor admitia sobre X e Y, as teorias W e Z são incompletas por natureza, pois tangem apenas os dois extremos da questão (e que não necessariamente são auto-excludentes); a maioria das pessoas estaria entre W e Z, sendo alternadamente pró-ativas e passivas. Mas tenho visto mais pessoas W do que Z em minha turma.

Vou tomar como exemplo um movimento que aconteceu na nossa lista de discussões por e-mail no primeiro semestre. Um de meus colegas deu a idéia, brilhante diga-se de passagem, de criar uma Midioteca da turma, com DVDs de filmes, séries e músicas. Este acervo seria construído com a colaboração de todos, que doariam no mínimo três DVDs diferentes, para ficarem guardados em uma caixa de madeira à disposição de todos. Caso alguém quisesse assistir, por exemplo, "De Volta Para o Futuro", poderia pegar a qualquer momento, desde que registrasse que ele estava com o dito filme.

Discussões teóricas sobre o material da caixa e onde ela seria guardada, bem como que filmes cada um doaria para a Midioteca, pipocaram na nossa lista como fogos de artifício em Copacabana no Ano Novo. Era uma idéia muito querida por todos, mas não saiu do plano das idéias, por que ninguém se prestou a arranjar uma caixa de madeira, e tenho minhas dúvidas se alguém iria doar alguma coisa para a Midioteca.

O trote está sendo outro brilhante exemplo dessa baderna. Fizeram uma reunião extraordinária esta semana (quarta ou quinta-feira) para discutir os detalhes do trote, como que brincadeiras fazer, que material comprar e como sujar os bixos da Psicologia. Como a reunião foi em Porto Alegre, e eu estava (e ainda estou) em Caxias do Sul, o que torna economicamente desvantajoso minha participação, não compareci. Ainda assim, consegui prever com um grau alto de precisão pontos importantes que ninguém se preocupou em falar: a burocracia envolvida e o trote dos bixos de Fonoaudiologia, nossos filhos bastardos, junto com a Odontologia. Mandei um e-mail para nossa lista dizendo isto em tom provocador, e descobri que, apesar de terem discutido a possibilidade de ter que lidar com a burocracia, não o fizeram em profundidade, e completamente ignoraram a Fono. Eu conheço minha turma.

Mandei em anexo a este e-mail uma lista com os telefones dos departamentos onde nossos calouros teriam aula, e propus que dividíssemos nossas forças para lidar com a burocracia e cuidar dos detalhes técnicos do trote. Até onde meu conhecimento vai, fui o único que pegou o telefone e ligou para aqueles números. Com isso, descobri que a Comissão de Trote do Instituto de Psicologia ainda estava esperando que enviássemos uma proposta de trote, detalhando o que faríamos com os calouros.

Não quero me santificar pelo que fiz, pois de qualquer forma agi tarde demais para fazer diferença, mas fui o único a demonstrar características Z. E isso tem acontecido com muita freqüência. Foi isso que me levou a formular teorias diversas e diametralmente opostas sobre o comportamento humano quando trabalham em grupo. A Teoria W é incompleta e insuficiente, pois as pessoas nem sempre são totalmente passivas (e, se todas assim o fossem, ainda estaríamos morando em cavernas), o que pude presenciar na própria faculdade. Praticamente a mesma argumentação é válida para a Teoria Z. Quando caracterizo os outros como absolutamente W, sofro por achar todos incompetentes. Quando caracterizo os outros como sendo Z, em pouco tempo me decepciono por que descubro (do jeito difícil) que minhas expectativas não correspondem à realidade. De qualquer forma, sofro inutilmente.

Acredito que a verdade esteja em uma terceira teoria, A, que considera que as pessoas tem o potencial de serem pró-ativas, mas que, por muitos motivos, em sua maioria externos, não conseguem realizar. Portanto, não podemos culpá-las, apenas compreendê-las e ajudá-las a tornarem-se mais senhores e senhoras de seus próprios destinos.

O pop não poupa ninguém

Entrei em uma loja hoje e vi uma camiseta com o símbolo do Batalhão de Operações Especiais do estado do Rio de Janeiro, o famoso BOPE, à venda por aproximadamente 15 reais.





Quase comprei. O BOPE é Pop!

Águas de Março

E começa mais um mês. Mais uma barrinha no Capacitor de Fluxo. Eu sou um babaca por fazer um post só pra dizer isso. ^^

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Níveis de Neuroticidade

Hoje, vi o trote, tanto dos nosos bixos de Psicologia quanto os de Fonoaudiologia ir por terra graças à nossa falta de tato burocrático e excessiva ênfase em porcarias. Só consegui falar com uma professora responsável pela Comissão de Graduação e o máximo que ela pode nos conseguir de tarde é liberar os bixos mais cedo das aulas. Fodeu tudo. E sabe qual é minha maior preocupação? Com que mão coçar meu saco. Larguei de mão me estressar por micharia. Meus níveis de neuroticidade neste momento devem estar no dedão do pé.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Imagem sem Sentido



Por que seriedade demais cansa.

Espírito e Religião - O lado Bom das Igrejas Neopentecoistais

Alguns dias atrás, Huginn fez um post sobre igrejas evangélicas. Mais especificamente, ele fala de um pastor mexicano, que provavelmente mora nos Estados Unidos, e sobre suas pregações obscurantistas, que falam sobre satanismo, sacrifícios humanos e como grandes empresas de entretenimento querem levar as pessoas para Satan. Até aqui, nada tenho para comentar. Mas no final do dito post, Huginn escreve que "é por isso que eu abomino as instituições da igreja."

Por causa de minha personalidade que sempre vai contra o que os outros dizem, fiquei um tanto quanto indignado com essa última afirmação. Primeiro, por que é baseada em uma falácia argumentativa, que parte do pressuposto que o pastor Josué Yrion representa todas as igrejas evangélicas neopentecostais do mundo - tomar a parte pelo todo. Segundo, por que é uma atitude muito comum entre os círculos de "livres pensadores" - homens e mulheres, geralmente ateístas, que desprezam e debocham de religiões e suas instituições. Não quero que tais pessoas deixem de dizer o que pensam, mas que o façam baseados em argumentos racionais precisos.

É lugar comum criticar religiões. Ultimamente, as neopentecostais se tornaram o alvo preferenciam dos racionalistas, mas as mais tradicionais Igrejas Protestantes como a Luterana, a Batista e a Calvinista, e a mais tradicional ainda Igreja Católica Apostólica Romana, para ficar só no Cristianismo, são criticadas há muito tempo. Apesar de não ser tão forte no Brasil, o Islamismo também é bastante atacado. Os principais argumentos contra estas instituições é que elas pregam um estilo de vida irracional, uma fé fanática, de visão estreita e frequentemente preconceituosa, e que enganam seus seguidores.

Não me atrevo, e nem desejo, defender as falhas destas instituições - são muitas, e são verdadeiras. Não vou enumerá-las aqui pois são muitas e pretendo não me extender muito. Além do mais, quem estiver interessado em um "Dossiê Crivela de Merdas das Neopentecostais" não precisa procurar muito: revistas como a Veja, Época e Istoé já publicaram muitas notícias cabeludas sobre os crimes que os pastores e bispos das referidas instituições já cometeram em nome da fé. Quando tanta gente critica e acusa uma pessoa ou organização, algo deve ter de verdadeiro.

Mas, utilizar todas estas acusações e críticas como justificativa para abominar estas instituições é um sofisma - pois toma sua parte ruim como sendo sua totalidade. O Huginn não expressou nenhum desejo ou crença de que o Brasil e o mundo estariam melhor sem as igrejas, ou as religiões em geral, mas muitos indivíduos bem-instruídos e supostamente bem pensantes já defenderam a tese de que é imperativo acabar com a ilusão de Deus, e levar para o hoi polloi (o povão) a Verdade Materialista, de que não há vida após a morte nem um homem de barba branca orquestrando tudo do alto de uma nuvem no céu. Eu mesmo questiono esta visão de mundo, mas não me arvoro o direito de dizer o que é certo e o que é errado para ninguém - coisa que a Universal faz com freqüência, um argumentador astuto diria, como toda a razão. Minha resposta seria que a Universal também faz isso, mas não detém monopólio desta prática.

A fé foi utilizada como leitmotiv (motivo inicial) para muitas coisas ruins: as cruzadas, 11 de setembro, espancamento de homossexuais, jihads, guerras civis. De um ponto de vista externo e pragmático, isto seria motivo o suficiente para decretar que a religião não trás nada de bom para o ser humano, que estaria melhor sem ela. Mas esta é uma opinião superficial. Sempre se parte do pressuposto que "o padre mandou fazer" (ou pastor, rabino, aiatolá ou sacerdote), e raramente de que aqueles que participaram eram mau-intencionados por si só (o que é diferente de ser intrinsecamente maldoso, devo ressaltar), que todas suas ordens são más, e que o único beneficiado nessa história toda é a igreja, o papa, enfim, a organização religiosa. O homem religioso em si, que obedeceu seus diretores espirituais, só se ferra.

Mas tal como muitos argumentos pentecostais, católicos ou muçulmanos, este é um ataque unilateral, pois ignora deliberadamente o que a religião pode trazer de bom para todos. E estou incluíndo aqui o que a Universal pode trazer de bom para seus fiéis.

Mais uma vez, utilizo a grande mídia como base para meus argumentos. Se você, caro leitor deste blog, entra em sites de fofocas de vez em quando, já viu alguma subcelebridade que ouviu o chamado de Cristo e entrou para igreja evangélica. O último destes foi o ator pornô Alexandre Frota. Os críticos devem ter sido rápidos em acusar sua conversão em "golpe de marketing", e que não é sincero, mas se analisarmos o padrão de comportamento destas subcelebridades neopentecostais, vamos perceber que todas elas tem em comum que, antes da vida religiosa, elas viviam num meio de drogas, promiscuidade sexual e emocional, e em última análise, sem sentido (meaningless). Aposto que muitos de nós acham que a vida de um ator pornô como Frota é a vida que pedimos a Deus, mas deve ser o justo oposto. Quem gostaria de ser lembrado todos os dias por sua participação num filme cujo estúdio, por causa das cenas de sexo anal, ficou todo cheio de merda? Outra destas filhas de Cristo é Monique Evans, que também vivia na esbórnia. Deste ponto de vista, acho que não é só compreensível estas conversões, mas louvável, por levar estas pessoas para um estilo de vida mais saudável.

Mas a mídia não perdoa, e faz parecer que estas conversões são frescuras de um subfamoso que quer chamar atenção. Por exemplo, o site Ego (cuja credibilidade começa pelo nome) publicou uma matéria sobre a filha de Baby do Brasil, Sarah Sheeva. O título da reportagem é "Sarah Sheeva abdica do sexo e vira missionária evangélica". Este título foi escrito de maneira a gerar espanto nas pessoas, e escárnio, pois quem em sã consciência deixaria de trepar pra ficar falando de Jesus?!?! O Portal Ego não pára por aí. Sarah Sheeva conta o motivo de sua mudança de uma vida ninfomaníaca para uma religiosa: “Aconteceu uma coisa muito louca, sobrenatural. Comecei a rezar, a falar com Deus. Na minha ignorância, dentro do meu quarto, de repente, senti uma presença forte, que era Deus. Cai no chão, me prostei e ali me converti”. Mais uma vez, quem lê imediatamente pensa que ou é golpe de mídia, ou ela teve um ataque epilético. Abraham W. Maslow, pai da Psicologia Humanista, fala em seu livro "Introdução à Psicologia do Ser" sobre as "experiências culminantes" (peak experiences no original) - vivências maravilhosas, que não raro mudam o rumo das pessoas que as vivenciam, e para melhor! Para quem estudou com atenção a obra de Maslow, é óbvio que Sarah Sheeva teve uma experiência culminante. Mesmo assim, o portal Ego, com sua linguagem moderninha-superficial faz parecer que foi apenas uma puta babaquice (ou uma babaquice de puta, que seja).

Na lista de "religiões criticáveis" não citei uma, muito importante no panorama mundial atualmente: o budismo. Ao contrário dos outros sistemas religiosos, o budismo raramente é criticado. Pelo contrário, é quase sempre muito elogiado por sua história e práticas pacíficas. Claro, se eu fuçar um pouco na Wikipédia eu vou encontrar uma guerra cujo leitmotiv foi o budismo, mas vai ser a exceção ao padrão (não me atrevo a dizer "regra"). Um materialista radical e pragmático provavelmente diria: "se temos o budismo, que apesar de ser uma religião, é pacífica e até que é racional, por que essas celebridades viram evangélicas?" Um argumento sonoro, mas profundo como um pires. O primeiro motivo para isto não acontecer é a disponibilidade - afinal, quantos templos budistas temos no Brasil, em comparação com templos evangélicos? Consigo citar mais nomes de igrejas neopentecostais inteiras do que templos budistas no Brasil. É mais fácil eu ir para a Universal do que para o mosteiro de budismo tibetano em Três Coroas. E quando alguém sente um vazio existencial, ela irá procurar apoio em um local próximo - e as pentecostais fazem isso muito bem.

O segundo motivo para que o Neopentecostalismo seja mais popular que o Budismo é a atitude de seus sacerdotes. Enquanto o pastor da Sara Nossa Terra ativamente chama para si as almas perdidas, o monge budista apenas recebe de coração aberto aqueles que procuram conforto em Buda. Quem está desesperado buscando um sentido vai no lugar que mais lhe chama atenção - e é inegável que os cultos da Universal são beeeem chamativos.

O terceiro e mais importante motivo é a motivação e (em parte) o nível intelectual das pessoas. As pessoas que vão para uma evangélica buscam salvação para sua alma, redenção de seus pecados. Querem ser acolhidas por alguém. Só. E mais uma vez, as neopentecostais fazem isso com excelência. Não importa se elas pedem dinheiro, elas acolhem qualquer um. Aquele que busca Buda é muito mais inquieto, pois ser apenas salvo não lhe atrai. Há nele um desejo, muitas vezes inconsciente, de algo maior do que isto, de ser compassivo e amoroso. Se nos dois casos se busca um sentido para a vida, há uma diferença espiritual muito grande. O nível intelectual também influencia esta escolha, pois os textos e práticas budistas são muito mais complexos do que os cultos e orações evangélicas. Talvez seja um erro utilizar o conceito de inteligência, ou de preparo intelectual, como argumento que diferencia budistas de evangélicos: há muitos fiéis da Universal com ensino superior completo, provavelmente muitos com pós-graduações avançadas, como doutorado ou pós-doutorado. E poucos aldeões tibetanos devem ter tudo isto. Talvez o termo mais correto fosse "preparo espiritual", mas prefiro evitar discussões metafísicas no momento. De qualquer forma, há uma diferença mental entre os dois tipos de religiosos que cito. Aqueles que buscam e ficam, por assim dizer, "satisfeitos" em freqüentar os cultos da da Igreja Renascer, estão preparados para receber e entender aquilo que seus pastores têm para oferecer, ao passo que aquele que busca Buda, se fosse parar na mesma Renascer, sentiria-se ainda insatisfeito, pois ele busca algo maior, e sentiria a satisfação do evangélico com coisas mais complexas. Da mesma maneira, um fiel de uma pentecostal não teria o preparo para entender textos como o "Livro Tibetano dos Mortos". Capacidade, talvez. Preparo, não.

Enfim, o que quero dizer é que, apesar de todos os seus defeitos, as igrejas evangélicas, tanto as mais antigas quanto as mais recentes têm o poder de dar aos seus fiéis sentido para a vida, através de uma mensagem que eles podem entender. O fenômeno das igrejas voltadas para setores específicos da sociedade, como metaleiros ou soldados do BOPE (que são mostradas na reportagem da revista Galileu do mês de fevereiro de 2008), mostra isso com clareza cristalina. As pessoas buscam algo que preencha o vazio que sentem; buscam serem aceitas como são, por pessoas que a entendam. As religiões como um todo fazem isso. Mas as pessoas são diferentes umas das outras, e buscam coisas diferentes - seja isto por causa de temperamento, genética, cultura, intelecto ou algo além disso tudo - e por isso existem tantas religiões e cultos diferentes. "Muitas lanternas, uma só luz". E nessa conta devemos incluir as Neopentecostais, com todos os seus defeitos e vícios. Alguns pastores (talvez não sejam só alguns) podem manchar a reputação delas, mas não podemos tomá-los como exemplos do que é ser evangélico.