domingo, 30 de agosto de 2009

Vida Dura (Parte 25)

Quando escrevi o primeiro post da série "Vida Dura", ainda no saudoso Roqueiro e Alcoólatra, foi depois de um impulso de escrever alguma coisa muito babaca, mas nunca parei para pensar qual seu verdadeiro intuito. Depois de vários posts no mesmo estilo, isto ficou claro: é fazer tempestade em copo d'água, pegando situações inócuas e transformando-as nos acontecimentos mais catastróficos que já se abateram sobre toda a humanidade. É muito divertido, tanto pra vocês, quanto para mim.

Seguindo essa lógica, hoje eu vou falar para vocês sobre um ônibus: o D43 Universitária, mais conhecido como o "Dê". Em Porto Alegre, existem várias instituições de ensino superior, em diversos pontos geográficos da cidade, o que traz como conseqüência que, todos os dias, milhares de estudantes universitários fiquem andando de lá para cá, pois precisam ir de casa para a faculdade, e da faculdade para casa (quando não precisam trabalhar entre um percurso e outro). Alguns destes estudantes têm carro próprio; outros, pegam carona com amigos ou pais; há também aqueles que vão naquelas vans fretadas, e aqueles felizardos que moram perto o suficiente para irem à pé para as aulas. Porém, há um último grupo, que não mora perto da faculdade, não têm carro, não tem como pedir carona, nem dinheiro para contratar os serviços de uma profissional do sexo van. Para estes, resta um último recurso: o sistema público de transporte. E esses sim, estão fodidos.

Eu moro do lado da faculdade. Não precisaria de ônibus, pois mesmo que eu fosse todos os dias pulando em um pé só e cantando as músicas do RBD, além de ser considerado psicótico, sempre chegaria a tempo para as aulas (pois essas sim, sempre começam com pelo menos 20 minutos de atraso). Se eu fosse mais humilde, e me contentasse em ter aulas só ali na Psicologia, eu me pouparia das muitas incomodações que empresas que a Carris e a Unibus me causam. Mas não! Eu não seria eu mesmo se eu não aranjasse sarna para me coçar, e não arranjasse alguma porra pra fazer no Campus do Vale, o campus mais isolado de toda a UFRGS. Reza a lenda que este campus foi originalmente construído durante a ditadura em cima de um antigo cemitério indígena, em parte para atender a crescente necessidade de espaço da portentosa universidade, em parte para arranjar um lugar onde os cientistas humanos e baderneiros em geral não pudessem encher o saco do governo militar. Ambos os objetivos foram atingidos com honras, por que sobra espaço nesse campus, e organizar passeata daqui até a frente da prefeitura para protestar contra a globalização é simplesmente inviável. OK, é verdade que, com a tecnologia moderna dos tempos contemporâneos de hoje em dia, o Vale não é mais tão inacessível quanto era na década de 1970, quando a atual Avenida Bento Gonçalves era só uma estrada de chão toda esburacada, mas muitos colegas meus se recusam a pegar aulas aqui* pelo campus ficar onde o Judas perdeu as botas.

Eu não sou assim. Sempre fui bastante aventureiro, e a idéia de ter aula no meio do mato me foi bastante atraente desde o primeiro ano de faculdade. Então, desde então, tradicionalmente no segundo semestre (não sei por que nunca no primeiro), me matriculo para alguma aula aqui. Em 2007/02, foi Alemão Instrumental. Em 2008/02, foi Genética para a Psicologia. E agora, em 2009/02, é Introdução ao Pensamento Filosófico. Além disso, desde o início deste ano, eu faço estágio aqui no Ambulatório Proteger, que atende casos de Saúde Mental, comportamento violento e casos casca-grossa em geral. Assim sendo, atualmente, eu tenho que vir para o Vale duas vezes na semana - uma na quinta de noite, e outra na sexta de manhã. Para poupar trabalho, eu já pensei em dormir aqui e poupar duas passagens, mas como eu acho que minha mãe ia ficar preocupada comigo (além de eu ficar sem jantar), acho melhor fazer a viagem duas vezes.

E para a viagem, conto com a ajuda dessa maravilhosa tecnologia moderna que nos ajuda em nossa rotina do dia-a-dia. Eu poderia citar as várias porcarias que fazem da nossa vida mais fácil, como meu chuveiro onde mantenho a higiene, a geladeira que conserva meu Nescau gelado, o próprio Nescau, meus sapatos e o guarda-chuva para os momentos que São Pedro abre as comportas do Céu quando o vapor atmosférico condensa-se em gotas d'água pesadas o suficiente cai o mundo e eu não quero me molhar. Mas a parte mais importante da minha ida e vinda do Campus do Vale é meio de transporte - o ônibus.

Ao contrário do que acontecia durante a ditadura, há hoje em dia diversas linhas de ônibus que fazem o trajeto "Campus do Vale - Civilização", sendo que pelo menos duas dessas atendem a demanda específica da população universitária, o Campus Ipiranga e o já mencionado D43. Ambos seguem um caminho muito similar, passando pelos três campi da UFRGS (menos na ESEF - o pessoal da Educação Física que vá correndo pra casa) e pela PUCRS. A diferença entre esses dois está apenas no tempo - enquanto o Campus Ipiranga para em quase todas as paradas do caminho, o D43 é bem mais direto e leva bem menos tempo. Isso, e o número de pessoas que pegam ele.

Eu sou um cidadão importante, com pouco tempo livre e com muita coisa por fazer (ou pelo menos essa é mentira que espalho por aí). Por isso, tenho pressa de chegar nos lugares onde sou necessário, e quanto mais rápido, melhor. Seguindo está lógica, não há nada mais racional, na minha situação, do que, tendo que atravessar a cidade para chegar no Campus do Cale, pegar o ônibus mais veloz e que faz menos paradas. Genial, não?

Genial, de fato, mas acreditem em mim, existem muito mais pessoas que têm essa mesma idéia diariamente. Muito mais. O suficiente para, toda vez que tenho que pegar o maldito D43, seja o carro do tamanho normal, ou seja um daqueles biarticulados, ele está sempre lotado. E quando digo "lotado", não quero dizer que todos os assentos estão ocupados e eu preciso ficar em pé. Quero dizer quer que até os lugares para ficar em pé estão ocupados, e que vou ter que passar um bom tempo da viagem me esfregando com criaturas desconhecidas e cujo status higiênico me é desconhecido! Todo dia de pegar Dê é mais ou menos igual: saio de casa, vou para a parada da Silva Só, e fico esperando. Quando vejo ele à distância, tento divisar quão atolado de gente ele está, para descobrir apenas no momento que ele passa do meu lado que tem gente se equilibrando no degrau da porta. Fantástico. Subo, tomando o cuidado para não ser atingido na bunda pela porta na hora em que ela se fecha, nem para cair na rua quando ela se abre. E, quando a oportunidade aparece, eu avanço um passo em direção à catraca (geralmente depois do cobrador dar o já tradicional grito de "um passinho pra frente, fazfavor, tem espaço no fundo do ônibus! Vamo liberá a catraca aqui, fazvafor!"). Repito esse processo várias vezes, até conseguir pagar a passagem e passar para o outro lado, com a única diferença que posso sendo encoxado por ainda mais pessoas. E se uma pessoa desde do ônibus, outras quatro vêm tomar o seu lugar.

Se a viagem inteira fosse assim, ela seria francamente insuportável e eu provavelmente teria desenvolvido alguma estratégia para evitar esta situação, como pegar outro ônibus, conseguir carona ou deixar de ser idiota e parar de me matricular em cadeiras no Vale. Contudo, há um ponto no meio do caminho em que as coisas mudam: a parada da PUCRS. Como o nome da linha implica, o D43 Universitária atende a demanda de transporte da população universitária, e as duas maiores universidades de Porto Alegre são UFRGS e PUCRS. De fato, quando o ônibus pára ali, ele magicamente esvazia, liberando metade dos assentos ou mais. Nos piores dias, ninguém que está sentado se levanta, e quem se levanta está longe demais para eu poder sentar, mas pelo menos eu consigo mexer minha bunda até chegarmos no Vale, e só isso me faz rezar o tempo todo para que cheguemos na PUCRS o mais rápido possível, e abençoá-la quando quase todo mundo desce. Claro, no caminho de volta acontece o oposto, e passo a xingar mentalmente todos os estudantes da PUCRS que jamais andaram de D43. Pelo menos daí eu estou bem sentado.





* Pois é gente, parte deste texto foi escrito durante um momento de vadiagem no estágio, durante o tempo ocioso que ordinariamente seria ocupado atendendo pacientes.

sábado, 22 de agosto de 2009

Minha Terça-Feira

Chove em Porto Alegre. É uma chuva fininha, mas persistente, que de tempos em tempos pára e dá lugar à uma neblina igualmente fina e constante, fazendo do clima na capital gaúcha um tanto quanto nojento.

Acordo mais tarde do que planejara, e, sentindo no frio que fazia fora das cobertas, postergo o inevitável momento de levantar e sair da cama. Já o segundo dia de aula do segundo semestre - o segundo depois das "férias gripais" que tanto queria que fossem estendidas. Deixo o confortável refúgio do colchão, e começo o ritual diário do despertar: tomar café, tomar banho, colocar roupas limpas para finalmente sair e ir para o campus, onde conseguirei alimento a baixo custo.

Dirijo-me ao Restaurante Universitário. Como é de praxe em todo início de semestre, a fila está duas vezes maior do que deveria, pois as novas turmas de calouros invadem todos os espaços da UFRGS como uma boiada descontrolada. Ao lado da mesa onde estão as bandejas, colocaram um porta álcool gel, para higienizarmos nossas mãos e não espalharmos a temida e afrescalhada Gripe A, e percebo como esta porcaria fede.

Em fim, este é um dia com tudo para ser ruim, mas nada disso importa, por que hoje, na sobremesa do RU, tem pavê. E todo dia de pavê no RU é um dia feliz.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A Metade do Caminho

Apesar de ter ganho duas semanas a maos de féries de presentes, já efetuei minha matrícula nas cadeiras obrigatórias da sexta etapa do curso de Psicologia. Este é o marco oficial de que ultrapassei a metade da faculdade. Considero este fato como especialmente significativo, pois daqui por diante, tenho menos para vencer do que já venci até agora - semestres, créditos, encheção de saco. Não posso dizer que estou na reta final, mas ela está logo além da próxima curva. Ao mesmo tempo que isto me anima um pouco, também me deixa um tanto quanto preocupado: há vida depois da faculdade? E se há, de que tipo? Ela vai ser significativa, ou apenas horas aplicando e corrigindo testes de personalidade para seleções de uma empresa qualquer?

Também atingi um outro marco que não considero tão positivo: na hora de escolher quais eletivas cursar este semestre, percebi que nenhuma das alternativas a mim oferecidas realmente me satisfazia. Já faz algum tempo que curso as disciplinas obrigatórias mais por obrigação do que por desejo, mas as eletivas, as que eu posso escolher livremente, sempre foram o porto seguro para onde eu ia quando discussões inúteis e trabalhos ridículos me faziam pensar seriamente se queria mesmo ser psicólogo. Admito que em semestres passados sofri decepções com algumas eletivas, mas o conjunto delas sempre me foi muito satisfatório. Agora, pela primeira vez, escolho minhas eletivas de acordo com o princípio do "menos pior". Com a exceção da cadeira de Fenomenologia e Cognição (na qual não posso me matricular por que ela é uma daquelas "Tópicos em Psicologia"), só achei minimamente atraentes as disciplinas oferecidas pelo Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, como Introdução à Sociologia e Introdução ao Pensamento Filosófico. E dessas, só vou poder fazer a última, pois a primeira ocorre no mesmo horário que uma das minhas obrigatórias (e que me levou a considerar seriamente a possibilidade de não fazer a obrigatória).

Não acho que isto fará do sexto semestre tão ruim assim, pois ainda tenho os estágios para me consolar, mas certamente as aulas, que já estavam muito chatas, vão ficar ainda mais, e eu já não sei se eu quero me formar logo ou não.

domingo, 2 de agosto de 2009

Olá mundo

É engraçado como as leituras podem influenciar alguém. No meu caso, noto que, depois de ler certos livros, textos ou poemas, além da óbvia vontade de agir conforme os ideiais neles contidos, sinto-me também compelido a escrever da mesma forma em que eles foram escritos. Preciso admitir que nunca consegui emular completamente o estilo de algum outro autor - até por que isto é praticamente impossível - mas consegui incluir alguns elementos de seu estilo no meu próprio e torná-lo mais rico e agradável.

Pensando nestas questões, lembrei-me deste blog, que é o melhor meio que possuo para dar vazão às minhas idéias, e que anda um tanto quanto negligenciado. Talvez esteja na hora de varrer a poeira deste lugar e voltar a escrever aqui.

Olá mundo, o Espadachim Cego voltou.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Maneiras como um ônibus pode causar dor de cabeça

Cumprindo um ritual que comecei ainda no meu primeiro ano de faculdade, amanhã embarco em viagem para Belo Horizonte, onde acontecerá o XXII Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia (ENEP). Diferentemente das edições anteriores, não vou como calouro que segue os mais velhos, mas como veterano já calejado que deve guiar os demais. Se sou digno de conferir a mim mesmo tal status, eu não sei.

E diferentemente do ano passado, ajudei a organizar o ônibus e o processo andou de maneira espetacularmente eficiente, pelo menos até uma semana atrás, quando fomos informados de um detalhe que pode acabar com tudo (ou pelo menos quase tudo). Prefiro não compartilhar nenhum detalhe aqui, por que foi justamente a indiscrição que nos colocou em tal situação.

Enfim, como faço há três anos, informo meus queridos leitores que, na próxima semana, a chance de eu fazer alguma atualização será praticamente nula. Eu sei que não tenho feito tantas atualizações assim, mas pelo menos a possibilidade de fazê-las depois do ENEP não serão nulas. E se por algum acaso eu não for para o ENEP, é por que eu morri lutando para ir (e, portanto, não atualizarei nunca mais o blog).

Até mais ver.

Fragmentos de um dia no estágio

Chego uma hora atrasado por que o céu decidiu cair na minha cabeça antes de eu sair de casa. Caminho a passadas largas em direção ao Quartel-General da equipe, a Casa 6, mas sou parado antes por um morador, que me chama animado. Entro na casa dele e tento pôr seu rádio para funcionar.

Tomo meu rumo novamente. Entro na Casa 6, mas quase imediatamente saio de novo, e vou em direção à casa de outra moradora. Coloco um CD de músicas gauchescas para tocar lá e saio de novo. Encontro meu supervisor e os residentes. Sigo a corrente e vou com eles visitar uma paciente "lá de cima", do Hospital. Vamos tomar café no barzinho do outro lado da rua, mas acabo pedindo uma Fruki Guaraná, que vem em garrafa de cerveja. Penso que é o melhor refrigerante de guaraná já feito na história da humanidade.

A paciente fala em francês com um residente. O outro não fala nada. Eu falo para meu supervisor sobre todas as maneiras em que um ônibus pode causar enxaquecas. Os residentes vão embora, e ficam só a paciente, meu supervisor e eu. Meu supervisor começa a falar algo sobre mim e como eu tenho feito diferença no local de estágio, mas ele é interrompido e não retoma essa conversa (para minha infelicidade). Conversamos sobre a língua francesa, a língua espanhola, Argentina e Caribe. Alguém na mesa pede um martelinho de cachaça de abacaxi. Tomo um gole que desce queimando meu esôfago.

Voltamos para as casinhas, conversando sobre como curar dores de cabeça induzidas por ônibus problemáticos. Passo na casa em que deixei tocar o Teixeirinha - uma moradora diz que adorou e pede se pode ficar com CD. Fico feliz. Vou para a casa de outro morador, que não abre a porta para mim pela primeira vez desde que comecei a estagiar ali por que está muito cansado. You win some, you lose some. Deixo ele em paz.

Vou para casa cansado e com fome. Um dia normal e estranhamente atípico.

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Talvez, quando vocês lerem esse texto, achem ele bastante estranho. De fato, ele é, mas foi escrito para ser assim, fragmentário como percebi este dia. Queria escrever um monte de acontecimentos diferentes sem ligação lógica e ver como ficava. Não se preocupem, no próximo post escreverei como uma pessoal normal novamente e não como o Paulo Coelho.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Experiência Subjetiva - Tomando Bebidas Energéticas

Fazer faculdade é tudo flores e doces (que mentira), até que o final do semestre se aproxima. Daí, meu filho, a água bate na bunda e você tem que correr contra o tempo para fazer teus trabalhos e entrega-los a tempo. Como muitas vezes as 12 horas de sol e luz de que dispomos não são suficientes para tanto, precisamos usar as 12 horas de noite e, isso mesmo que vocês estão pensando, deixar de dormir. Para algumas pessoas, isto é relativamente fácil. Como todos que já foram meus colegas de aula sabem, definitivamente não sou uma delas. Pelo o que aprendi com a observação de mim mesmo, preciso de uma quantidade consideravelmente grande de sono e, muitas vezes, mesmo depois de uma boa e longa noite atirado aos braços de Morpheu (olha a boiolagem), eu acabo apagando nos lugares mais impróprios, tais como salas de aula, auditórios lotados, campos de construção e zonas de bombardeio.

Então, quando o final do semestre chega, com sua cabeça feia e fedida, exigindo que eu fique acordado mais tempo do que posso ficar por conta própria, que faço para não dormir e terminar meus trabalhos? Uso drogas, é claro! Meu pai deve ter quase caído de sua confortável cadeira ao ler este parágrafo, então, para deixa-lo mais tranqüilo a respeito do tipo de substância que consumo, vamos definir o que são “drogas” para mim. Considero uma “droga” toda e qualquer coisa que eu possa consumir e alterar meus estados mentais – nesta definição, até Nutella pode ser considerada uma droga, pois quando eu como, eu fico feliz. Então, a droga que consumi para ficar acordado e fazer meus trabalhos foi uma bebida energética. Normalmente, bebo coisas mais leves, como chá preto, coca-cola ou café, que têm efeito similar e são menos duvidosas, apesar de certamente terem um efeito menor. Contudo, como eu estou com prazos bastante apertados, passei ontem no Zaffari e comprei duas latinhas de “Atomic”: uma para fazer meu último trabalho à noite, e a outra para ficar acordado em aula. Como vocês podem imaginar, eu acabei de tomar esse lixo, fiquei ligadão e, como eu gosto de compartilhar com vocês as demências mais bizarras que acontecem comigo, decidi escrever a respeito desta experiência desde seus primórdios, quando a terra era ainda jovem... e, porra, me perdi.

Já dá para saber, antes de tomar, que essas bebidas energéticas não prestam, a começar pelo nome que dão para esses lixos. O nome “atomic” me faz pensar que em coisas radioativas e potencialmente perigosas. Pegando a latinha e prestando mais atenção às letras miúdas, vê-se escrito “crianças, gestantes, nutrizes, idosos e portadores de enfermidades: consultar o médico antes de consumir o produto. Não é recomendável o consumo com bebida alcoólica”. Viu? Falei que não presta. Que tipo de bebida precisa de prescrição médica para ser consumida? Eu sei que ninguém lê essas porras no meio de uma festa, mas imaginem a cena: um senhor de idade vai numa balada no Opinião e compra uma Red Bull. Cauteloso, ele lê as instruções de uso e vê que é recomendável falar com alguém que fez Medicina antes de consumir (por que quem fez Medicina sempre sabe de tudo). Ele pega o celular, liga para o médico de sua família e pergunta “doutor, será que eu posso tomar uma latinha de Red Bull”? O augusto herdeiro de Hipócrates diz que não, e nosso amigo obedece, devolvendo a latinha para o barman. Pois é, altamente improvável que isso venha a acontecer um dia. Muito mais provável é alguém tomar esse lixo e ter um piripaque (especialmente quando misturado com alguma bebida alcoólica de alta potência, como está na moda fazer agora, e como está escrito ali na embalagem que NÃO É PRA FAZER). E além de tudo isso, a latinha parece um pinto duro. Sério.

Bem, apesar de todas essas ressalvas, eu ainda preciso ficar acordado, e eu sei que bebidas energéticas deixam as pessoas ligadas e acordadas por experiência própria, pois não é a primeira vez que utilizo esta estratégia. Porém, na outra ocasião, meu objetivo era apenas manter-me desperto, e não produzir algum tipo de escrito, tornando os resultados deste experimento muito mais imprevisíveis. Mesmo assim, depois de perceber que se não tomasse uma providência logo, logo, capotaria de sono antes de terminar todos os meus trabalhos, dirijo-me à cozinha, abro a geladeira, e dou de cara com um portal para outra dimensão. OK, isso não é verdade. Eu só pego a latinha de “Atomic”, olho para ela e penso: como isso parece um pinto duro. Depois das devidas considerações psicanalíticas a respeito dos meus desejos homossexuais reprimidos e se deveria ou não colocar essa bomba química para dentro do meu sistema digestivo, abro-a e consumo o primeiro gole. E, preciso dizer, para um produto com tamanha demanda, essas bebidas energéticas tem um gosto horrivelmente parecido com Fruki Guaraná vencida e sem gás (o que me faz pensar, juntamente com o nome do negócio, se isso aí não é mijo de alguma vaca criada em Chernobyl).

De cara, sinto-me mais alerta. Obviamente, isso é o efeito placebo dando suas caras, pois só o tempo de tomar um golinho não é suficiente para as substâncias energizantes se espalharem por todo o meu organismo. Mas isso é positivo, pois mostra que acredito no poder de Jesus Cristo o Salvador da tal de “Atomic” e seu principio ativo de extrato de guaraná me manter desperto e atento. E acreditar é poder! Volto para a frente do computador, junto com a fiel latinha em formato fálico, ainda bebericando seu conteúdo, e sentindo lentamente seus efeitos verdadeiros chegarem chutando. O primeiro deles é uma maior agitação corporal, que me faz mexer com violência minha perna direita. Depois disso, percebo um déficit na minha capacidade de concentrar-me nas tarefas dadas e de manter as idéias tempo o suficiente em minha memória para desenvolve-las. Percebi este sintoma enquanto tentava escrever meu trabalho de Método Clínico e Diagnóstico, mas ficou ainda mais óbvio quando comecei a escrever este post aqui – por que eu sei que estou num nível hardcore de procrastinação quando começo a escrever qualquer coisa para meu blog quando tenho pilhas de coisas por fazer. Logo após perceber a diminuição de minha atenção, percebo que estou mais propenso a cometer erros de digitação, não por que eu tenha ficado mais descuidado (a neurose obsessiva me impede), mas por que minha coordenação motora fina, a que move os dedinhos e faz com que eles batam as teclinhas com letrinhas do laptop, ficara prejudicada por um certo descontrole e um leve tremor – leve, mas nem por isso desprezível. Há também sintomas psicológicos positivos. Especialmente notável é o aumento na minha capacidade criativa, pois, além de começar este texto aqui, consegui resolver um problema filosófico que atravancava o pleno desenvolvimento de minha argumentação.

Em outras palavras, talvez seja possível dizer que esse mijo de vaca radioativa chamado “Atomic” instalou em mim um estado muito semelhante em alguns aspectos à hipomania. Para os leigos, hipomania é o estado de humor extremamente positivo que acomete os pacientes com Transtorno do Humor Bipolar do Tipo II. Contudo, não notei em mim nenhum sentimento de euforia aumentada ou irritabilidade, mas é um tanto quanto complicado de identificar estes sintomas sem ninguém por perto. Também não lembro se tremores nas mãos e menor coordenação motora fina são também sinais de hipomania. Numa ida ao banheiro para urinar e escovar os dentes, percebo que não é só minha coordenação motora fina que ficara um tanto quanto abobalhada, mas também meu senso de equilíbrio. Durante minha rotina de higiene bucal, fechei por um instante os olhos e senti meu corpo inteiro pender para um lado, não o suficiente para me fazer cair como uma tábua, mas o bastante para me fazer perceber meu estadinho.

Com o tempo, os efeitos do “Atomic” vão se esvanecendo e tornando-se mais sutis, mas ainda presentes em sua maior parte. Começo a ficar um pouco menos alerta, minha perna pára de sacudir alucinadamente e cometo menos erros ortográficos. A minha concentração aumenta consideravelmente, e minha criatividade começa a tornar-se mais cinzenta e menos florida (apesar de ainda ser bastante escandalosa). Mais uma porção de tempo passa, e mais uma vez noto a paulatina mudança nos sintomas da bebida energética. Encontro-me agora na situação ideal para produção de textos e trabalhos que requerem concentração e esforço, pois o cansaço não me aflige, os tremores desapareceram quase que inteiramente, sinto-me alerta e perceptivelmente inspirado, como se algum espírito estivesse aqui ao meu lado, sussurrando as palavras por dizer.

Creio que, de agora em diante, as mudanças na minha fisiologia e comportamento serão mais quantitativas do que qualitativas. Por isso, me dou ao luxo de escrever uma conclusão a respeito do meu pequeno experimento de tomar energético para ficar acordado e fazer trabalhos: só repito essa indiada no final do próximo semestre, com a diferença que, nessa hipotética próxima vez, eu vou beber essa porcaria com duas horas de antecedência e ficar saltitando feito um pogobol chapado até eu sentir-me concentrado o suficiente para escrever páginas e mais páginas de trabalhos.

E a latinha ainda parece um pinto. E tenho dito.

Pergunta do momento

Por que final de semestre sempre vem acompanhado por uma sensação de apocalipse iminente? É a privação de sono ou os trabalhos para entregar amanhã?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Televisão, Estágio e Loucura (Parte 2)

Mais um dia de estágio, mais um dia de exposição às ondas televisivas. Fui na casa de um morador, para ver como ele estava e conversar um pouco. Como era de praxe, a TV estava ligada. Se serve de consolo, pelo menos desta vez ele não estava sentado no sofá semi-morto, mas tomando seu café da tarde na mesa ao lado, onde se podia apenas escutar a TV. O programa que assistiamos hoje não era nem um filme ruim de doer, nem aquele programa de velhas fofoqueiras com sede de sangue que é o "Brasil Urgente" do Datena - era o show da Márcia. Para os abençoados que não lembram ou são jovens demais para lembrar, aqui vai a maldição do conhecimento - depois que vocês lerem este post, nunca mais esquecerão. Resumidamente, essa Márcia é uma apresentadora rampeira que trabalha como "cabeça" de shows vagabundos há um bom tempo, mas que estourou de verdade há uns 10 anos ou mais quando foi contrada para apresentar um programa de auditório (narcisisticamente chamado de "Márcia") cuja principal missão era a de ser um fórum para aqueles que, não satisfeitos em brigar com algum amigo ou parente por um motivo besta, queriam mostrar para todo o Brasil que estavam brigando com algum amigo ou parente por um motivo besta. Lembro de ter assistido alguns episódios, e a coisa era realmente besta - a atração principal de um era dois amigos brigando sobre qual era o melhor time, Grêmio ou Inter (falando nisso, como tem corinthiano aqui em Porto Alegre, hein?). Tenho a impressão que, por mais que eu me esforçasse, jamais poderia ter idéias tão idiotas. Em todo caso, depois de um tempo ela começou a perder credibilidade (que mesmo hoje não é exatamente muito grande), o programa saiu do ar e ela foi parar na geladeira do SBT. Maaaas, sendo a fênix que ela é, ressurgiu tempos depois, em outro canal, apresentando a mesma porcaria. No presente momento, ela apresenta um programa praticamente igual ao que lembro dela apresentar no SBT, inclusive com o mesmo nome (por que alguém que disse ao vivo que queria que todas as mulheres que assistiam o seu programa fossem fortes, firmes e decididas não deixaria seu narcisismo assim tão facilmente).

O programa é um lixo. Um grande, verdadeiro, completo e total lixo. Não paira nenhuma dúvida a respeito disso. Eu sei disso, o auditório sabe disso, os moradores do São Pedro sabem disso, a produção do programa sabe disso, a Márcia sabe disso! Ainda assim, não dá para tirar os olhos da droga da TV por que a maldita apresentadora enrola tanto, faz tanto doce que no fim qualquer que seja a merda que ela esteja apresentando parece a coisa mais interessante do universo! Veja o exemplo do programa de hoje. A atração principal era um quadro chamado "Espelho Meu" - nesse quadro, a produção do "Márcia" escolhe uma pessoa, geralmente mulher, pobre, favelada e com uma história de fazer a Joseph Klimber chorar, para passar por uma reforma geral no próprio corpo e sair praticamente uma deusa. Esta proposta é duplamente chamativa, por que atrai a atenção do público tanto pela caridade que a Márcia "faz", quanto pela curiosidade mórbida. Eu fui pego pela segunda, pois o que realmente me chamou a atenção foi o close que deram nos dentes completamente podres da pobre candidata à princesa encantada antes do "extreme make over". Mas, o fator que gera mais curiosidade é o mistério. Não se acompanha passo a passo a lenta transformação desta mulher, nunca se vê ela por inteiro, só em partes (os dentes podres, por exemplo). Quando ela tem que aparecer com todo o corpo, ela aparece usando uma roupa preta e uma máscara branca, cobrindo tudo.


Disfarce da participante do quadro "Espelho Meu". Creepy...


A idéia é ir gerando tensão e curiosidade no público, para segurar ele até o final e ver o resultado. E, meu chapéu, como funciona! E como aquela desgraçada da Márcia se aproveitava de nossa paciência! A cada cinco minutos, mostrava na tela um pedaço do processo - no cabelereiro, no dentista, no dermatologista, no pai de santo - dizia que a mulher estava ali, conversava com ela, e então ameaçava mostrá-la ao público. Porém, no exato momento em que achávamos que ela ia mostrar, ela cortava para os comerciais ou para o jabá de algum produto remelento. Isso chegou a atrapalhar meu desempenho profissional. Estava lá eu, conversando com meu acompanhado terapêutico, fortalecendo nosso vínculo, quando de repente aparecia a Márcia e começava a falar no "Espelho Meu". Desconcentrava-me completamente e ficava prestando atenção na TV, pensando "É agora!". Não, nunca era. Depois da terceira vez que ela negou fogo, decidi que era hora de ir embora. Passei, contudo, na casa de outra moradora, e adivinhem o que ela estava fazendo? Sim, olhando a Márcia. Decidi que era meu destino ver como ficara a pobre mulher totalmente repaginada, e fiquei assistindo aquele lixo televisivo até o final. E, como era de se esperar, me decepcionei. Quando ela finalmente apareceu, a primeira coisa que falei foi "colocaram uma cebola no lugar do cabelo dela?" OK, admito, ela estava bonita, mas não o suficiente para justificar toda a atenção que dei para ela. E esse programa é sempre assim: capturam tua atenção com uma chamada espalhafatosa, te enrolam até onde conseguem e então te decepcionam. Mas, não importa quantas vezes isso tenha acontecido, sempre que você ligar a TV naquele canal, naquele horário, vai acabar olhando o programa da Márcia de novo, por que com certeza alguma idiotice vai te atrair. O site do programa também é assim - "mulher noiva há 25 anos"? "Marido infiel jura ter mudado"? Que porra é essa? Não sei, mas quero ver! E é assim que programas ruins continuam no ar: atacando continuamente os nossos pontos mentais mais fracos.




Márcia: histericamente chamando nossa atenção em mais de um front.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

As Provações da Faculdade XXXVI

Aparentemente, este desenho revela muitas coisas a respeito de minha personalidade.

Aparentemente, este aqui também.


Seguindo esta lógica impecável, o desenho abaixo também deveria.


Minha opinião a respeito de algumas cadeiras, pelo menos.

As Provações da Faculdade XXXV

Toda culpa que eu sentia por fazer o trabalho de Avaliação Psicológica II em cima da hora e com o mínimo de empenho desapareceu no momento em que li com mais atenção os critérios utilizados para a interpretação dos dados do teste projetivo H-T-P (House-Tree-Person).

domingo, 28 de junho de 2009

Postura Terapêutica em Situações Complicadas

Esse post é baseado em uma conversa que eu e meu colega Bruno tivemos no Google Talk. É curta, mas aborda assuntos que todos que trabalham na área da saúde eventualmente terão que confrontar, especialmente profissionais da saúde mental. Corrigi erros de português e coloquei umas palavras a mais para deixar o texto mais claro, mas não mudei sua essência. Aqui vai ele:

Eu: Cara, mudando de assunto, qual tua opinião a respeito de dizer o diagnóstico para o paciente? Por exemplo, dizer para uma paciente que ela é borderline? Tu acha que é terapêutico ou iatrogênico?

Bruno: depende de cada caso, e do teu plano sobre o que fazer ao informá-lo. No caso, digamos, de uma adolescente identificada como borderline, primeiro, é preciso testar rigorosamente essa hipótese. Também é preciso avaliar a gravidade. Se ela tem muitas tendências suicidas, e já tentou matar ex-namorados algumas vezes é bom informar a ela e aos seus familiares o que é isso e como proceder, e porque é importante ela se manter em tratamento. Por que a pergunta?

Eu: Interesse acadêmico. Meu supervisor local falou sobre isso esses tempos lá no Morada, e depois eu ouvi alguém no congresso falar exatamente o oposto.

Bruno: Hummmmm... teu supervisor local se posicionou contra a devolução do diagnostico?

Eu: Sim – disse que era iatrogênico dizer para alguém que ele era neurótico, por que ela se identificaria com isso. Ou algo assim.

Bruno: Hummmmm... No caso do diagnostico estrutural psicanalítico, eu acho que sim. E de transtornos de personalidade também... com exceção de borderline, talvez. Tipo, não me parece que ajuda dizer pro paciente que ele é histriônico ou narcisista, mas dizer que ele tem Transtorno de Humor Bipolar, personalidade borderline, epilepsia ou esquizofrenia parece muito benéfico, porque ajuda ele a se entender, e entender que aquilo vai continuar pra sempre mesmo, e vai ter que seguir em tratamento psicológico e farmacológico.

Eu: Então, na tua opinião, depende do transtorno?

Bruno: Depende do beneficio que for trazer. Tem transtornos que parecem não trazer beneficio nenhum, enquanto outros sim.

Eu: É contextual, então.

Bruno: Aham, e depende muito da conduta do terapeuta. Tipo, só mostrar o diagnostico vai deixar o paciente muito confuso. É importante explicar como funciona e, principalmente, o que fazer. Isso tem que ajudar ele a se entender, ser compreendido por familiares e colegas, e fornecer o instrumental para ele viver uma vida mais feliz

Eu: E, mais importante, o terapeuta deve deixar claro que tem tratamento, por que se não, daí sim é iatrogênico.

Bruno: Bah, muito boa. Isso se aplica pra diagnosticos psi. Lembra da Síndrome de Huntington? Ou da Síndrome de Hatch? São doenças neurodegenerativas muito graves e sem cura, e é um baita dilema sobre dizer ou não que a pessoa pode demenciar e morrer logo. Mas acho que aí que ta o tentar oferecer uma vida de menos sofrimento. Tipo, dizer isso pra um adulto, que ele vai demenciar e morrer dentro de dez anos, tem que ser acompanhado de um baita trabalho para estimulá-lo a aproveitar a sua vida plenamente, se não ele vai acreditar que não vale a pena viver. E dar a certeza de que, quando ele demenciar, sua família vai acolhe-lo com cobertores quentinhos, comida boa e deixá-lo vendo desenho e levando-o para a praça ou para ver o mar.

Eu: Essa certeza é meio complicada de dar, considerando que não depende da gente.

Bruno: Sim, sim. Mas a gente tem que fazer esse acordo com a família.

Eu: E torcer para que eles cumpram com a palavra deles (ou que o paciente demencie logo e não lembre nada a respeito disso).

Bruno: XDDDDDDDDD

Eu: Em todo caso, a gente cai na velha discussão de "quem cuida dos cuidadores?" - por que, por um lado, cuidar de um familiar demenciado não é fácil, mas por outro, cumprir a promessa de dar cuidado para ele pode dar uma sensação de sentido para os cuidadores.

Bruno: por isso a importância do acompanhamento. Os familiares também sofrem, e precisam desse amparo e de orientação.

Publicado originalmente nos Amoladores de Facas.