segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Previsões dos astros para celebridades em 2012 - Um Estudo Etnográfico

A Psicologia tem uma ingrata fama como "a ciência dedicada á fofoca." Penso que este título é injusto por dois motivos. O primeiro é que nós, psicólogos, não fazemos fofoca - nós comentamos o comportamento alheio, e damos sugestões para sua melhoria. O segundo é que, se existe uma ciência da fofoca, é a Antropologia. Todo o seu trabalho consiste em ir para outro lugar (principalmente tribo indígena no meio da Amazônia), anotar o que as pessoas lá ficam fazendo e voltar pra contar TU-DO pros compadre.

Antes que o eventual antropólogo me acuse de reducionista, positivista, etnocêntrico e feio, permita-me dizer que: sim, eu sou reducionista e positivista, mas minha mãe me acha lindo e você tem que respeitar a minha opinião por que ela faz parte da minha cultura. Além disso, eu não tenho nada contra a Antropologia. Na verdade, eu adoro Antropologia, por que sou um fofoqueiro assumido. Eu poderia me esconder atrás de uma parede de justificativas e racionalizações, como, por exemplo, que a informação deseja ser livre, e que eu acredito ser um crime esconder todo e qualquer tipo de conhecimento da humanidade, mas prefiro ser honesto e dizer que eu A-D-O-R-O falar da vida alheia, como um antropólogo formado pela escola da vida, criado no meio deste lindo povo brasileiro, pobre e sofrido, mas sempre com dança no pé, alegria no rosto, cabelo ao vento, sempre disposto a crescer e ajudar a crescer. Enfim, sou um fofoqueiro assumido.

E para provar o quanto eu gosto de antropologia, vou empregar o seu método para estudar a forma mais pura de fofoca: a revista Tititi. À primeira vista, a Tititi é apenas mais uma entre as muitas revistas voltadas a noticiar os aspectos mais irrelevantes do mundo das celebridades e estragar o final da sua novela favorita. De fato, para um observador ingênuo, a Tititi é apenas mais um borrão de tinta colorida com chamadas berrantes nas prateleiras ao lado do caixa do supermercado, logo acima das embalagens de Halls, e logo ao lado das caixas com Kinder Ovo. Este mesmo observador ingênuo poderia se perguntar, enquanto espera por sua vez para ser atendido, como esta revista continua sendo publicada, se tudo o que há para saber sobre ela está escancaradamente estampado logo na capa - quem compraria a Playboy se a mulher do mês saísse mostrando tudo já na capa? Da mesma forma, por que eu compraria uma revista de fofoca pra saber o que vai acontecer na novela, se só olhando a capa eu já sei que Marcela está viva e que voltará para destruir Tereza Cristina?

Porém, para olhos treinados... a revista é isso aí mesmo: um grande borrão de tinta colorida, feita pra chamar sua atenção da forma mais gritante possível. Tudo que interessa nela está escrito na capa da forma mais clara possível, sendo o resto das coisas que enchem a revista (além de propagandas) é pura bobagem. Por outro lado, acho que, se alguém se interessa o bastante pelo arranca-rabo entre a Marcela e a Tereza Cristina, ela vai se interessar pelo resto das coisas que estão escritas dentro da revista de forma mais sutil (e isso inclui as propagandas). Além do mais, essa maldita Tititi custa só R$1,99 e fica estrategicamente na boca do caixa. É muito fácil pegar junto com um Kinder Ovo a mais e levar pra casa, por que dificilmente essa compra de impulso vai desestabilizar todo o seu orçamento.

Foi exatamente isso o que aconteceu comigo. Estava desavisado, pensando na vida, no universo e em tudo mais quando meus olhos vagam para a prateleira das revistas bagaceiras e, PUMBA!, eu vejo a Tititi. Obviamente, aos 23 anos de idade, não foi uma experiência exatamente nova. Já tinha visto centenas, possivelmente milhares de revistas identicas à esta que está agora ao lado do meu computador. O que me fez querer comprar esta, justamente esta revista? Simples. Uma de suas manchetes é "Previsões 2012: saiba tudo o que os astros reservam para os artistas da TV." Foi aí que eu fui fisgado. Todo mundo tem um ponto fraco, um gosto por algo extremamente babaca e vergonhoso e ao mesmo tempo extremamente divertido. Os americanos chamam isso de "Guilty Pleasure" - prazer culposo ou culpa prazerosa. E todo início de ano, sempre que passo em uma banca de revista ou em algum supermercado, eu sou confrontado com a enorme e prazerosa culpa de ver essas reportagens sobre o futuro dos astros. Eu sei que vão ser apenas frases curtas e vagas sobre o futuro de pessoas famosas que não exercem o menor impacto na minha vida, e que ao longo do ano ou elas vão ser refutadas ou esquecidas (ou as duas coisas, muito provavelmente), mas agora, enquanto o ano ainda é novidade, holy shit, não existe assunto mais importante do que saber o que diabos vai acontecer com o Reynaldo Gianecchini.

Então, para compartilhar esse prazer com vocês, e também para poder dizer depois que eu não fui o único contaminado, deixo aqui as melhores previsões feitas pelo baralho cigano, pelos búzios, por uma sensitiva, pelo tarô, pela astrologia e pela numerologia (multidisciplinar esse negócio, hein gente?). Lá vai:

Léo Santana (vocalista do Parangolé)
"O cantor pode ser pai de uma menina num momento inesperado. O próximo ano será difícil, pois ele também tem chance de perder dinheiro em conseqüência de negócios mal feitos e traições. Deve abrir os olhos com os falsos amigos."

Comentário: Será que ele é parente do Luan Santana? Certamente o dom para escrever músicas que não saem da cabeça é partilhado pelos dois. De qualquer forma, adoro a maneira vaga como essas predições são feitas. "Pode ser pai de uma menina num momento inesperado"? A não ser que ele seja um castrati (o que ele não é), parto do pressuposto que ele tem o sistema reprodutivo em condições de fazer nenê. Por isso que a profecia é pouco impressionante. Impressionante seria se fosse "Léo Santana poderá perder os colhões em acidente de trabalho. Mesmo assim, ele ainda poderá ser pai de uma menina, o que será bastante inesperado."

Luan Santana
"Se o cantor não quiser ser pai antes do tempo deve ficar bem alerta com mulheres interesseiras. O sucesso e a fama continuarão a mil em 2012, mas ele deve ter cuidado com eventuais perigos em viagens que fará até junho. Outra dica do oráculo é: Luan não deve acumular trabalhos que não poderá assumir. E precisa ainda cuidar de seu lado espiritual."

Comentário: Esse oráculo aí veio fazer o que eu aposto que a mãe do Luan Santana já faz há muito tempo: mandou ele usar camisinha e cuidar pra não embuchar alguma fã mais ousada. Só faltou dizer pra levar um casaco por que tá frio na rua e pra não deixar comida sobrando no prato.

Maísa (andróide do mal do programa do Sílvio Santos)
"Sucesso, destaque, popularidade e muito dinheiro no ano de 2012 para Maisinha. Aliás, ela será a criança mais bem paga da televisão em breve. A atriz e cantora mirim ainda poderá mudar de emissora. Cuidados com a garganta e dores constantes de ouvido em maio e junho"

Comentário: Dor de garganta e ouvido em maio e junho? Putz grila, eu passei por isso também quando eu tinha a idade da Maísa. Se chama "Inverno." Admito que é melhor do que o "usa camisinha, Luan Santana", mas não muito.

Fábio Jr.
"Para o cantor vai ser um ano profissional excelente a partir de março! Fará diversos especiais e verá a carreira renascer. Contato com seres de outras dimensões o deixará ainda mais em sintonia com a música. O lado afetivo somente melhora no fim de 2012. Deverá pintar uma nova paixão para o eterno galã."

Comentário: Mais especiais? Por acaso ele vai gravar um CD com seus maiores sucessos? Até aqui, isso não é nenhum renascimento da carreira - é a essência da carreira do Fábio Jr.! E tô apostando que a nova paixão deve ser a mãe dele, a única mulher com quem ele ainda não se casou. Isso, ou um dos seres de outras dimensões.

Primeiro Post no Blog do Último Ano da Humanidade

Bem vindos à 2012, o ano em que o mundo vai acabar! De novo. Segundo cálculos pessoais, eu já sobrevivi a 6 apocalipses anunciados anteriormente. Porém, tenho certeza de que dessa vez não falha! Os maias nunca mentiriam ou errariam sobre um assunto tão importante para a humanidade.

E enquanto ia me preparando para o arrebatamento (estocando armas e água potável, por que eu sei que vou ficar por aqui mesmo para sofrer), percebi que negligenciei este blog por dois meses inteiros. Dois meses! O número anual de posts foi diminuindo desde 2008, apesar dos meus repetidos protestos de que eu ia voltar a escrever, mais ou menos como um marido abusador que promete parar de bater na mulher e virar um bom homem.

Mas esse ano não vou fazer novamente essa promessa, por que esse ano eu decidi fazer algo diferente*. Entro agora na reta final da faculdade, começo a escrever o TCC e o projeto para o mestrado, tarefas que envolvem muita pesquisa e muita, muita energia psíquica, que não pode ser desviada para este blog, por mais carinho que eu tenha por ele. Além disso, como o mundo vai acabar e eu só quero dançar, o tempo que eu tiver livre eu vou me divertir, do melhor jeito que puder.

Entretanto, como ainda não me libertei da minha obsessividade, e da minha necessidade de ver o contador de posts aqui do lado aumentar cada vez seus números, eu prometo que, se não vou escrever aqui todos os dias, nem todas as semanas, e talvez nem todos os meses, pelo menos, de vez em quando, a cada morte de bispo e sacrifício de virgens, eu virei aqui para compartilhar as minhas idéias estapafúrdias com quem quer que ainda tenha fé e esperança de que este blog, como Jesus, ressuscite no terceiro dia (ou ano, sei lá). Se o ano de 2012 não for o nosso último, e se em 2013 eu não estiver ainda mais atolado de trabalho do que estarei ao longo dos próximos 12 meses, continuo sem prometer coisa nenhuma, exceto de continuar vivo por tanto tempo quanto for possível.



* Aposto que você ficou esperando uma piada sobre a Luíza Marilac, sua pessoa previsível.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Trinta minutos

Depois de mais um longo dia de trabalho, Rogério entra em seu carro, para iniciar a jornada de retorno ao lar. Como se estivesse num ritual, ele tira a gravata, desabotoa a camisa, coloca a chave na ignição, sente o volante com as mãos e o assento com as costas, para só então ligar o motor e sair de sua vaga no estacionamento. Assim, ele lentamente prepara tanto seu corpo quanto sua mente para os trinta minutos de viagem pela frente - não por que a viagem fosse especialmente sofrida ou exigente. Na verdade, ele fazia todas estas preparações por que aqueles trinta minutos seriam os únicos em todo o seu dia em que ele se sentiria realmente feliz, e queria aproveitá-los ao máximo.

De forma tão ordenada quanto seu ritual, e de forma tão determinada quanto a estrada que o leva para casa, seus pensamentos também seguem o mesmo caminho de sempre, o mesmo caminho de todos os dias. Quando se senta dentro do carro e começa a tirar a gravata, Rogério pensa "que dia longo e cansativo." Quando desabotoa a camisa, ele volta sua atenção para seu pescoço, e, outra vez, percebe que ele está dolorido. Ao colocar a chave na ignição e sentir o volante em suas mãos, ele checa a quantidade de gasolina no tanque, e recapitula as últimas visitas que fizera ao mecânico. Finalmente, ele joga suas costas contra o assento, vira a chave na ignição e parte do seu local de trabalho. Finalmente, por que este é o ponto alto de seu dia. Na curta distância entre sua vaga no estacionamento e o portão de saída, Rogério é um Buda Iluminado, imperturbado e imperturbável - nenhum pensamento lhe constrange, nenhuma emoção o afeta, nenhuma sensação o altera. Este momento, porém, é curto, e assim que ele se vê de novo na mesma autoestrada que vê todos os dias, tanto indo, quanto voltando de casa, ele é outra vez visitado por um velho companheiro. Pelos primeiros dois ou três quilômetros, Rogério finge que seu amigo não está ali, diz para si mesmo que é perda de tempo gastar sua energia pensando nisso, coloca alguma música para tocar no rádio, cantarola para si. Seu companheiro, contudo, é persistente, e permanece ali, sussurrando no ouvido de Rogério, lembrando-o de que ele ainda está ali, juntinho dele, e que não irá a lugar nenhum nos próximos trinta minutos.

No quarto ou quinto quilômetro, quando percebe que não conseguirá fazer seu amigo ir embora, Rogério se resigna. Normalmente, isto acontece quando ele passa por aquela árvore engraçada na beira da estrada. A árvore não era tão engraçada assim - se Rogério tivesse a mostrado para outra pessoa, ela provavelmente perguntaria "o que essa árvore tem de especial?" Nada, ele diria. Nada que os outros possam ver, pelo menos. O que aquela árvore tinha de engraçado, de especial, era que ela lembrava Rogério de tempos mais leves, mais felizes. Era aquele eucalipto que ficava do lado do prédio de salas de aula de sua antiga faculdade em Porto Alegre, onde ele e seus amigos tantas vezes se apoiaram e tomaram chimarrão, dormiram sob sua sombra, conversaram, riram e até mesmo choraram. Geralmente, eram essas lembranças que faziam Rogério resignar-se com a companhia que tinha para a viagem, e a conversar com ele.

Este companheiro, como a coisa engraçada da árvore, não era nada que outras pessoas poderiam ver - era etéreo, e acessível apenas para Rogério. Ele o chamava de vários nomes; normalmente, tentando diminuir seu tamanho dentro do carro, ele o chamava de "meu superego", e fazia algumas piadas sobre o duvidoso estatuto científico da psicanálise; outras, quando ele estava com dor de cabeça, ele o chamava de "essa idéia outra vez", para poupar trabalho de pensar a respeito. Porém, quando ele estava mais lúcido, e via o mundo ao seu redor com mais clareza, o nome que ele dava para o seu companheiro era o mais simples, e o mais contundente. Nesses dias, ele o chamava de "Minha Pergunta."

Sim, sua pergunta, por que do sexto quilômetro da viagem em diante, ele tentava de algum jeito responder à pergunta que seu companheiro, tão execrado e ainda assim tão querido, lhe fazia: "por que eu ainda estou aqui?"

Nesses dias, pelo menos naquele trecho do espaço e tempo, Rogério deixava junto de sua gravata todas as as suas defesas, suas desculpas e seus temores, fazia um balanço geral de sua vida e chegava à uma conclusão, a mesma de sempre, e jurava para si próprio que, com base nessa conclusão, ele mudaria tudo em sua vida. Contudo, essa forte resolução sumia no momento em que ele, já fora do carro e dentro de sua casa, escutava a voz de sua mulher, Dóris. Por ela, Rogério abandonou toda sua vida prévia: sua família, seus amigos, seu emprego e sua cidade, tudo para ir morar com ela. Era a Dóris quem ele culpava por se encontrar em tão miserável situação e, paradoxalmente, era por causa dela que ele não fazia absolutamente nada para mudar.

A ironia não passa desapercebida de Rogério nesses dias, por que, nesses dias, sem nenhum véu a cobrir seus olhos, ele vê as suas fraquezas pessoais expostas, e o preço que ele paga por evitá-las. Com as mãos no volante, ele sabe que sua coragem vai desaparecer quando tirar o pé do acelerador e colocá-lo no chão de sua garagem, que sua raiva se transformará em contida resignação, e o grito de dor entalado na garganta será suprimido para poder dizer, sem nenhum tremor que o denuncie, "oi amor, como foi seu dia?" para sua mulher. Ele sabe de tudo isso, e portanto, deseja ainda mais aproveitar os trinta minutos de liberdade que tem entre a escravidão apática de seu emprego e o doce cárcere da paixão que tem em seu lar.

"Por que eu ainda estou aqui?" Rogério se pergunta, e encontra muitas maneiras de responder à esta questão. Primeiro, como bom intelectual, ele faz uma retomada histórica, explicando cronologicamente como chegara ali. Recorda os primeiros meses de faculdade, as primeiras baladas, as primeiras bebedeiras, os primeiros beijos. Sem se deter na nostalgia dos detalhes, ele lembra como e quando encontrou Dóris pela primeira vez. De saia branca nos joelhos, sapatilha preta e gel nos longos cabelos castanhos, ela ia para uma festa, a mesma que Rogério iria. Alguma coisa nela chamou sua atenção, e, do mesmo modo, algo nele chamou a atenção dela. Não demorou muito para que na festa ambos se procurassem e se agarrassem com desejo. Entre um beijo demorado e outro, conversavam bastante. Percebiam que tinham muito em comum, e que simpatizavam muito um com outro por serem tão parecidos. Com a distância do tempo e a clareza da estrada, Rogério acompanha, como quem relê um romance, a meteórica paixão que nasceu naquela festa. Ele, moço e inexperiente, nunca tinha tido um "relacionamento sério" antes, e não sabia exatamente o que fazer com um. Ela tampouco tinha experiência nessa seara, mas tinha muitas idéias sobre como um "relacionamento sério" deveria ser. Aqui, Rogério pega um cigarro e começa a fumar, por que aqui ele percebe onde as coisas começaram a dar errado.

Com nicotina no sangue, Rogério vai mais rápido em sua análise. Lembra como Dóris era romântica, e assistia a todos aqueles filmes água com açúcar que lhe davam sono, de tão previsíveis que eram. Lembra do dia em que ela, muito séria, veio lhe dizer que se mudaria para muito longe com sua família, e queria saber se ele continuaria a amando. Ele, atordoado pela notícia, ficou sem palavras. Gostava dela tanto assim? Manteria o namoro como ela queria? Enquanto recorda das lágrimas nos olhos de Dóris quando lhe disse naquele dia que não sabia, Rogério olha outra vez para o medidor de gasolina. "Quase vazio" diz para si mesmo de forma mecânica. Na verdade, o tanque está pela metade, o que daria para fazer aquele trajeto pelo menos umas sete ou oito vezes mais. Entretanto, parar no posto de gasolina logo em frente lhe acrescentaria mais quatro ou cinco minutos ao tempo total de viagem. Seriam mais quatro ou cinco minutos de liberdade, de solidão, para aproveitar a súbita lucidez que tomou conta de seu cérebro.

Pára o carro, desce e vai até a lojinha do posto pra comprar balas de hortelã enquanto o frentista enche o tanque. Faz um esforço pra lembrar onde havia parado. Sim, as lágrimas de Dóris. Sempre que ela chorava, ele cedia e fazia o que ela pedia. Não apenas as lágrimas, mas as acusações também o sensibilizavam tremendamente, especialmente insultos como "seu insensível" e "você é frio." Foi assim que o relacionamento se manteve, por cinco anos, à distância - todas as vezes que Rogério manifestava estar descontente, Dóris acusava-o de querer traí-la, de não amá-la, de ser frio e insensível. Ele se rendia, e então, ela voltava a ser a criatura amável de sempre, e fazia planos de irem morar juntos, casarem, terem filhos, envelhecerem juntos e serem felizes para sempre. Por algum motivo que ele não sabia explicar, Rogério detestava estas conversas. "Papo Conto de Fada", ele os chamava, mas apenas para si, por que temia enfurecer Dóris, caso ela percebesse a nota de desprezo que poderia aparecer em sua voz. Não é que ele não gostasse de Dóris - na maior parte do tempo, ela era uma garota bastante do seu agrado: atraente, sorria com freqüência, amante fogosa e com uma conversa razoável. Aqui, enquanto fumava mais um cigarro, e esperava o frentista lavar o parabrisa, Rogério encontrou a resposta para sua pergunta: eu ainda estou aqui por causa de Dóris.

Será que eu amo ela? Ele se perguntou, mas não, não era essa a pergunta que lhe incomodava. Ainda hoje, ele sabia que gostava de Dóris, e que era um homem de sorte por ter se casado com ela. O que ele não sabia era: valeu à pena vir até aqui?

Com as mãos outra vez firmes no volante, ele recapitula o último ano. Faltando um ano para sua formatura, Dóris lhe telefonou para lhe dar as boas novas: tinha conseguido um emprego longe da casa dos pais, e queria que ele se mudasse com ela. Rogério, já sabendo que se dissesse "não sei", ou qualquer outra coisa que indicasse hesitação, faria Dóris chorar, aceitou o convite. Pediu transferência na faculdade e conseguiu também um emprego próximo do de Dóris, deixando para trás toda sua história.

Faltando quinze minutos para estacionar seu carro em casa, ele chega à velha e temida conclusão de sempre: valeu à pena? Não, não valeu, ele responde para si sem hesitar. Seu trabalho atual era, na melhor das hipóteses, medíocre. A cidade onde moravam era morta e o relacionamento caminhava para destino similar. Rogério sabia que, passadas os primeiros momentos de carinho, Dóris o encheria de perguntas - por que demorou tanto? Por que olhou para a vizinha? Por que ele quase não conversava mais com ela? Dependendo da resposta que desse, e do humor de Dóris nesse dia, ele sabia que ela choraria, e ele outra vez cederia ao seu pranto. Vale à pena?

E eu, pergunta Rogério, com raiva. E eu? Como fico? Todos os planos que abandonei para ficar com ela, neste fim de mundo? É assim que ela retribui meu amor? Nunca sou o bastante, e, ao mesmo tempo, não posso viver minha vida sem que ela chore e implore por mim! É isso que eu quero para mim?

Falta agora apenas um quilômetro para Rogério chegar em casa. Três minutos, quatro talvez, antes dele chegar em casa. Era pouco tempo, e uma eternidade ao mesmo tempo. Mais uma vez, ele encontrou a resposta que seu companheiro queria - ir embora, isso era o que Rogério mais desejava. Teria ele coragem de dizer isso para Dóris, depois de tanto tempo? Deveria ele aproveitar o a distância que ainda tem para tentar uma fuga alucinada pela cidade? Não, não, já não há mais como: o portão da garagem já está aberto, e ele entra com o carro, da mesma maneira que sempre entrou. Será que, dessa vez, acontecerá o mesmo que sempre acontece quando ele entrar em casa?

domingo, 31 de julho de 2011

Utopias (9)

Mais uma utopia anarquista: bolo'bolo! Junto com "Zonas Autônomas" de Hakim Bey, este livrinho, escrito por alguém que se identifica apenas por PM (Polícia Militar?) é, na minha opinião, uma das mais interessantes contribuições da teoria anarquista à mudança social.

Apesar de aparentar ser mais um panfleto ideológico, "Bolo'bolo" é um trabalho bastante sólido, um daqueles textos que dá pra perceber que o autor estudou bastante para criá-lo. Diferente de "Zonas Autônomas" e "Utopias Piratas", "Bolo'bolo" não é empiricamente embasado, pelo menos não de forma direta. É bem provável que as propostas do livro tenham sido postas em prática em algum lugar do mundo, considerando que ele é bastante popular entre os anarquistas e outras correntes políticas mais underground, mas não sei dizer se o livro em si foi escrito com base em alguma experiência do autor. Em todo caso, PM cita diversas fontes da biologia e da psicologia evolucionista para justificar seu modelo de utopia.

E em que consiste este modelo? De longe, é a proposta mais simples de todas as que eu já li. Basicamente, PM propõe uma mudança na maneira como vivemos nossas relações sociais. Ao invés de nos mantermos dependentes de alguma estrutura externa e impessoal, como o Capital, o Estado e o Mercado, nós deveríamos fazer com que todas as nossas relações sejam diretas e pessoais. No mundo ideal de PM, não existiria nenhum princípio centralizador como o governo para dizer o que as pessoas podem ou não podem fazer - dentro do limite razoável, tudo seria possível. "OK", você deve estar pensando "esse cara é o Rei do Óbvio. Todo mundo quer isso! Como é que ele espera conseguir isso?" É uma boa pergunta, e uma que eu fico muito feliz em poder responder: mudando toda nossa rede social. PM sugere, como alternativa às cidades superlotadas, desagradáveis e estressantes de hoje, que vivamos em bolos, comunidades intencionais e autossuficientes energeticamente de até 500 pessoas. Este número, ele justifica, é pequeno o bastante para que conheçamos todos os nossos vizinhos pessoal e diretamente, e grande o suficiente para ainda para podermos escolher com quem desejamos conviver. Cada bolo seria independente dos demais, ainda que possa estabelecer relações de amizade e parceiria com seus vizinhos próximos (e mesmo bem distantes).

Bolo'bolo significa, ao mesmo tempo, o plural de bolo e o estado político mundial que PM espera estabelecer, onde a unidade política mais importante é a comunidade intencional de até 500 pessoas. Aliás, preciso explicar algumas coisas sobre a "língua universal" que ele propõe. Para o autor, cada bolo deve ser tão autônomo e autodeterminado quanto possível, e isso inclui a sua linguagem. Só por que dois bolos estão geograficamente próximos um do outro, não quer dizer que ambos necessitem falar português. Cada um pode ter o seu próprio dialeto, ou inventar a sua maldita língua própria desligada de toda e qualquer família filológica, se se seus membros assim decidirem. Entretanto, apesar da autonomia, os bolos precisam se comunicar. Para isso, PM propõe a asa'pili, a língua do mundo. Ele pegou fonemas desconexos entre si, e atribuiu-lhes símbolos e significados universais, e que poderiam ser utilizados em qualquer parte do planeta. "Asa" é mundo, "pili" é linguagem. Colocando-se o apóstrofe, cria-se a palavra para designar a linguagem do mundo. Ao todo, são apenas 29 palavras, que descreveriam e apontariam as experiências essenciais de todas as pessoas neste mundo. No livro, ele descreve em detalhes propostas para cada um destes termos, mas como eu acho que um resumo de tudo seria algo simplesmente inútil, considerando quão bom de ler é o livro, vou apenas listar os 28 termos e falar daquilo que mais me chamou a atenção em alguns deles:

Dysco: Comunicação
Ibu: Indivíduo
Bolo: Comunidade
Sila: Hospitalidade
Taku: Caixa de madeira com os pertences pessoais do ibu
Kana: Subdivisão do bolo
Nima: Identidade cultural do bolo
Kodu: Forma de produção agrícola dos bolos
Yalu: Nutrição, alimentação e comida
Sibi: Bens e necessidades materiais
Pali: Energia
Suvu: Água
Gano: Espaço
Bete: Saúde e seus cuidados
Nugo: Cápsula de veneno a que cada ibu tem direito
Pili: Linguagem ou comunicação
Kene: trabalho compulsório
Tega: Comunidade que une 20 bolos (bairro)
Dala: Assembléia entre vários bolos
Dudi: Delegado do bolo na dala
Vudo: Congregação de vários tegas (comarca)
Sumi: Congregação de vudos (região, estado ou província)
Asa: a Espaçonave Terra
Buni: Troca de presentes entre ibus e bolos
Mafa: Sistema de presentes socialmente organizado
Feno: Acordo de trocas mais ou menos permanente entre bolos
Sadi: Mercado de trocas
Fasi: Meios de locomoção e direito de ir e vir
Yaka: Duelo entre ibus ou grupos maiores

Estas palavras que o autor inventou podem parecer bobas (e desconfio que PM queria que elas soassem pelo menos um pouquinho idiotas, para que não fossem sacramentadas e cristalizadas), e pode parecer coisa de imbecil propor palavras novas para conceitos antigos. Contudo, apesar de achar este assunto interessante, vou encerrá-lo dizendo apenas que, dentro do sistema de bolo'bolo, elas fazem sentido e são úteis. Outros dois assuntos que considero importantes mas que fogem do escopo deste post são Nugo e Yaka, que são as maneiras como o autor incluiu a violência em seu mundo. Seria correto dar a todas as pessoas deste mundo uma maneira tão eficaz e próxima de acabar com a própria vida? E devemos instituir um sistema que dê vazão aos nossos piores instintos? Deixo a dúvida no ar, pra quem quiser discutir isso nos comentários.

O que mais me chamou a atenção no livro é o que há por trás da proposta de sua sociedade. Nos seus primeiros nove capítulos, o livro fala sobre a atual miséria existencial do mundo, que é independente de nossa classe social ou localização geográfica - ricos, pobres ou remediados; engenheiros high-tech, técnicos em eletricidade ou miseráveis - todos nós sofremos de algum jeito por causa do atual sistema econômico em que vivemos. PM chama a este sistema de A Grande Máquina de Trabalho do Mundo (A Máquina, para os íntimos). O papel da Máquina é nos fazer trabalhar e produzir o tempo todo, sem que percebamos quão miseráveis nos sentimos fazendo isso e esquecendo o que realmente queremos e gostamos. É como o comecinho do filme "Clube da Luta", em que o personagem-narrador fala em como ele tinha um emprego de merda, que o sobrecarregava física e emocionalmente, para que ele tivesse dinheiro para comprar mesinhas de centro engraçadinhas e kits de tempero que ele guardava ao lado da geladeira permanentemente vazia. Absolutamente, não era aquela a vida que ele queria para si, mas por comodismo, e pela Máquina recompensar seus esforços com dinheiro para comprar porcarias, ele seguia nela, minuto a minuto perdendo um pedaço da sua alma. Diariamente, somos bombardeados com mensagens de trabalho, dever e renúncia. "Trabalhem pelo futuro de seus filhos" a Máquina nos diz, e nós, obedientes, baixamos nossas cabeças, estudamos aquilo que não queremos estudar, trabalhamos com aquilo que não queremos trabalhar, e postergamos sempre nosso prazer e nossa felicidade, por que, se estamos felizes, é por que não estamos produzindo. Isto realmente nos faz bem? Os dados epidemiológicos de saúde, que mostram quão presente é a depressão e o estresse crônico em nossas vidas, me fazem pensar que não. E precisamos viver desta maneira? Bolo'bolo defende que não, e, diferente de muitos teóricos das ciências sociais que temos por aí hoje (olá, Departamento de Psicologia Social e Institucional da UFRGS! Aquele abraço pro Deleuze e pro Guattari! Já criaram algum conceito altamente abstrato, redundante e inútil hoje?), oferece um modelo diferente.

Neste modelo diferente, nós voltaríamos ao paleolítico, onde nossos antepassados trabalhavam apenas três ou quatro horas por dia, e dedicavam o resto de seu tempo para cuidar de si próprios: amavam, pintavam, dormiam, brincavam, rezavam, viajavam. lembro que, logo após a ocupação da reitoria da UFRGS em protesto contra a maneira como o Parque Tecnológico estava sendo implantado aqui em Porto Alegre, um meio de comunicação importante e com um arrasto para a direita fez uma piada que só quem quer voltar à idade da pedra e é meio retardado seria conta o tal Parque Tecnológico. Fico imaginando uma resposta parecida para o meu texto, defendendo o progresso e o desenvolvimento econômico como as coisas mais importantes do mundo. Mas, exasperado, eu grito: progresso para ONDE? Desenvolvimento DO QUÊ? Onde ficam as pessoas no meio disso? Como elas se beneficiam? Quem se dá bem com o tal do progresso? Os grandes executivos? Nem eles, eu aposto, que de tão preocupados que ficam com dividendos e ações e lucros que esquecem de usufruí-los! Alguma coisa está muito errada com o mundo, nós estamos sofrendo por causa disso, e mesmo assim insistimos em fazer mais do mesmo - mais trabalho, mais economia, e mais dinheiro pra lavar minha consciência com drogas e bens materiais que podem apagar essa dor que nunca se vai, e que pede sempre mais e mais pra ficar quietinha no canto, como se fosse nosso cafetão.

Bolo'bolo quer mudar isso. Nesta sociedade, nosso tempo seria nosso de verdade, e não do patrão ou da empresa. As coisas ficariam mais lentas, já que ninguém ficaria trabalhando 24 horas por dia para que tudo funcionasse sem nenhum problema, mas e daí? Sempre teríamos todo o tempo do mundo para fazermos o que bem entendessemos, sem pressa nenhuma. Li em algum canto escondido da internet que "para quem não tem pressa, todos os lugares estão à distância de uma caminhada". No bolo'bolo, seria sempre assim, não apenas para viagens, como para o próprio trabalho. A sociedade seria baseada tanto nos pequenos prazeres, como o de comer torta de chocolate depois do almoço, como na felicidade de construir algo novo e positivo para o mundo, ao invés de ficarmos girando a roda dentada do progresso para outra pessoa ficar girando outra roda teoricamente mais privilegiada. Esta é a parte mais bonita do livro. Ao invés de cair na mesma falácia que os partidos comunistas e socialistas defendem, de engrandecer uma classe social e tripudiar em outra, bolo'bolo reconhece que todos nós sofremos por causa do sistema, mesmo os ditos favorecidos.

Resta, por fim, a pergunta de um milhão de dólares: isso funcionaria no mundo real? Por mais sólido e bem construído que o livro seja do ponto de vista teórico, resta saber se ele poderia sair do plano das idéias e ser implantado neste mundo de carne, osso e sangue em que vivemos. Num capítulo intitulado "Cronograma Provisório", PM defende que, em até cinco anos após a publicação original do livro (1983), nós poderíamos instituir o bolo'bolo, e que todos os atrasos seriam de nossa exclusiva responsabilidade. Será mesmo? Eu olho pela janela do meu quarto, e vejo o mesmo mundo angustiado e sofrido em que eu nasci, em 1988, e não vejo nem bolos, nem sila, nem bete: apenas kene e dor. Será que nós nos atrasamos tanto assim, ou será que PM subestimou o poder da Máquina sobre nossas ações, ou mesmo nossa natureza egoísta e reacionária? Sinceramente, não sei. Um bolo sozinho e isolado no mundo poderia dar certo por algum tempo, vindo a se tornar até mesmo uma Zona Autônoma Permanente, porém, no fim, ele se desmancharia, como as utopias piratas e mesmo a nossa ocupação da reitoria da UFRGS. Para que bolo'bolo venha a se tornar realidade, precisa acontecer em todo o planeta, praticamente ao mesmo tempo. Será que somos capazes de fazer uma coisa dessas?

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Julho não passará em branco

Uma época, muito tempo atrás, eu tinha o compromisso pessoal de escrever pelo menos um post por dia para o blog. Este compromisso, porém, teve que ser abandonado por causa das muitas responsabilidades que assumi desde o terceiro ano de faculdade, e acabei diminuíndo a freqüência obrigatória de posts de 1 por dia para pelo menos 1 por mês.

Então, aqui está o post de julho.

Mas não pensem que postei isso só pra não me sentir culpado! Não senhor! Tenho planos para o próximo mês, planos que envolvem escrever mais do que apenas um texto de mea culpa. Primeiro, retomarei a minha série sobre utopias, para a qual já tenho dois textos planejados. Já comecei a escrever um texto sobre os dois últimos filmes da série Harry Potter (não por que ninguém nunca pensou em escrever sobre isso, ou por que não temos textos o bastante sobre esses filmes e esta série, mas por que eu gostei e quero escrever a respeito), e, dependendo do meu humor, pretendo escrever uma resenha sobre o livro que acabei de ler, "Memórias de um Doente dos Nervos", e algo sobre disciplina e Kung Fu, como já fiz antes por aqui.

Anyway, este blog não morreu. Não ainda. Só está em coma, e como aquele episódio de House provou pra todo mundo, pacientes em coma profundo há muito, muito tempo eventualmente acordam para fazer alguma coisa interessante, e morrerem em uma gloriosa explosão de heroísmo. Ou ficam lá, fazendo suas necessidades deitados, e morrem sem ninguém notar. Sei lá.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Descobertas Psicológicas Através da Neurologia

Em algum de seus livros, Maslow falou que o processo científico envolve muito amor, pois o pesquisador precisa amar seu tema de pesquisa para poder estudá-lo. Caso contrário, por que perder tempo com bobagens? Nesse mesmo livro, ele também falou de como, durante sua tese de doutorado, ele olhava com carinho para os chimpanzés que ele estava estudando, e como ele gostava de observá-los.

Depois de duas semanas estudando a obscura patologia chamada neuroacantocitose, começo a identificar em mim mesmo este afeto de que Maslow falava. É uma coisa sutil, que se manifesta das maneiras mais bobas, como ler o título de um artigo e já imaginar sobre o que ele irá falar; olhar as referências e ver os mesmos títulos de sempre; decorar os termos mais complicados (como "herança genética autossômica recessiva"), apenas para mostrar que eu andei estudando; olhar os nomes dos autores dos textos mais citados e considerá-los como velhos amigos - sou praticamente "faixa" do Adrian Danek nessas alturas do campeonato, que, pelo grande número de artigos publicados sobre o assunto, me leva a crer que é o maior entendido do mundo em síndromes neuroacantocitosas. É um superlativo bastante limitado (afinal de contas, quantas pessoas estudam neuroacantocitose no mundo, além dele e de mim?), mas mesmo assim, só consigo pensar no Danek com respeito, por que graças à ele, tive a oportunidade de aprender bastante sobre neurologia.

Por que, sim, estou aprendendo bastante sobre uma nova ciência. Na maioria dos casos, não entendo boa parte do que está escrito nos artigos (creatinofosfoquinase? O que é isso?). Porém, com cada artigo que leio, novas informações são adquiridas, e as antigas são ressignificadas (creatinofosfoquinase, por exemplo, é uma enzima cuja quantidade na corrente sangüínea é utilizada como critério diagnóstico para as neuroacantocitoses). E isso é muito divertido.

domingo, 5 de junho de 2011

Breve comentário sobre uma revisão bibliográfica

Por causa de uma série de fatores, acabei tendo que fazer uma revisão bibliográfica sobre neuroacantocitose, uma doença neurodegenerativa rara pra caramba, que afeta uma em cada sei lá quantos milhões de pessoas. É tão raro que eu quase só tenho encontrado estudos de caso bastante pontuais a respeito, como "neuroacantocitose tratada com carbamazepina" ou "neuroacantocitose e sintomas de depressão".

Porém, o mais engraçado, e o que me fez escrever um texto aqui, é a grande quantidade de estudos de caso indianos que eu encontrei. Apesar de eu ter que fazer um certo esforço para não ler nenhum desses artigos em voz alta imitando um sotaque estereoticamente indiano, sou obrigado a reconhecer que os artigos são de muito boa qualidade.

Outra coisa que essa pesquisa me fez perceber: eu gosto de estudos de caso, muito mais do que estudos de larga escala. Parece que, por se focar em apenas uma pessoa, há mais espaço para detalhes, e para descrever o processo por trás daquele paciente, daquela história. Fico pensando se não deveria fazer um estudo de caso como trabalho de conclusão de curso.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Tempo e Técnica

Em Análise do Comportamento, existem dois conceitos ao mesmo tempo opostos e complementares: Regras e Contingências. Regras neste contexto não são determinações externas de autoridade, e sim todo e qualquer comportamento verbal que funciona como antecedente para outros comportamentos. Em outras palavras, regras são quaisquer sugestões, ordens, leis ou algorítmos que pré-determinam para nós como devemos nos agir. Nós estamos o tempo todo formulando regras para nós mesmos, como "se eu colocar o dedo na tomada, vou tomar um choque", "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura" e "Deus ajuda quem cedo madruga". De um ponto de vista evolutivo, tal comportamento é bastante adaptativo, por que nos permite aprender algo sem necessariamente ter que entrar em contato com este algo.

As contingências, por outro lado, são este "algo" que não necessariamente precisamos contatar. Dito de outra forma, as contingências são as qualidades do ambiente ao nosso redor, e que nos fazem agir da maneira como agimos. Por exemplo, estar apaixonado é algo que 99% das novelas brasileiras aborda, mas só sabemos como é estar apaixonado de fato quando somos atacados pela flecha do Cupido. Da mesma forma, é bem diferente o seu pai dizer que colocar a mão no fogo machuca, e ser teimoso e colocar a mão no fogo para daí, sim, descobrir que fogo machuca!

A distinção entre estes dois conceitos na vida real para nós, seres verbais, é bastante confusa: como é que eu vou saber se o que eu aprendi foi através de contingências diretas, ou a partir de regras dadas por outrem em algum momento da minha vida? Não poderíamos considerar as regras como um tipo diferente de contingência, e encontrar uma diferença entre ela e outros tipos de contingência? A resposta para estas perguntas é "sim, regras são contingências, e elas possuem diferenças", mas não é isso que quero falar nesse post hoje. Na verdade, apenas falei sobre regras e contingências por que, no momento, eles me parecem a maneira mais clara de expor o que ando pensando sobre a diferença de aprender com alguém e aprender diretamente: Conhecimento versus Experiência.

Como psicoterapeuta em formação, aprendi muito lendo os textos de outras pessoas, onde elas relatam sua própria experiência. Este aprendizado por regras foi essencial para mim, e continuará sendo até o dia em que eu resolva me aposentar. Entretanto, depois de quase três anos atendendo, eu noto uma grande diferença na maneira como eu me comporto hoje como terapeuta, e como eu me comportava quando eu comecei a atender. Além de eu me sentir mais confiante, eu percebo que minha atenção está mais aguçada, e que eu sou muito mais capaz de encontrar "pontos de apoio" para intervenções terapêuticas. Agora, me pergunto: como serei depois de 30 anos trabalhando como psicólogo? Olho outros profissionais, já a muito tempo "no mercado", e percebo que eles são ainda mais capazes do que eu de fazer estas intervenções.

Esta observação me fez chegar à conclusão de que, apesar dos ensinamentos (regras) dos outros serem importantes para a formação de qualquer profissional, em qualquer área, a experiência direta é ainda mais, por que, quanto mais experiência se têm, mais capacitado se é para adquirir ainda mais. É quase como que uma "singularidade tecnológica" acontecendo nos teus neurônios, constantemente refinando e expandindo tuas habilidades, ao ponto de, depois de 60 ou 70 anos, tu te tornares um semideus na tua área profissional. Claro, como todos nós morremos um dia, é importante também passar um pouco dessa experiência adiante, para que outras pessoas possam partir de um ponto mais avançado do que nós um dia começamos.

"Knulp" - a história de um andarilho

Como meu nom de plume indica, eu tenho uma simpatia especial por andarilhos. Começou com o personagem principal de Samurai X, que se ampliou à minha admiração pela história de "Na Natureza Selvagem", ao meu gosto pelo livro "No Fio da Navalha" e se tornou depois de algum tempo em idealização de toda uma classe de personagens, reais ou imaginários, que tomaram como missão de vida caminhar pelo mundo sem nenhum apego além daquele à própria causa. Como a minha escolha de palavras indica, tem uma boa dose de "wishful thinking" da minha parte em achar que todas as pessoas que vagam o mundo são nobres e dedicadas a um Bem Maior, mas acho que o que importa no final é ideal que o arquétipo do andarilho me inspira do que a maneira como ele se manifesta no mundo.

Então, esse post é para falar de coisas ideais, e de coisas que fracassam em atingir o ideal. "Knulp" também. Esse é o título de um dos livros mais desconhecidos do Nobel de Literatura Herman Hesse - até o momento, só encontrei uma pessoa além de mim que tivesse lido ele em uma mesa de bar. Francamente, não é algo realmente surpreendente, por que, se comparado com suas outras obras mais conhecidas, especialmente "O Lobo da Estepe", "Demian" e "Sidartha", há muito pouco pathos na história. O personagem principal, apesar de compartilhar muitas semelhanças com os personagens principais desses outros livros (que, por sua vez, compartilham muitas semelhanças com o próprio Herman Hesse, que eu imagino que era um andarilho à sua própria maneira), não sofre intensamente. A pergunta filosófica que os outros fazem, "qual o meu lugar neste mundo?", é respondida antes mesmo do começo do livro. Nós acompanhamos Knulp tomar a decisão de não conformar-se em ter uma vida mediana como todas as outras pessoas, e viver vagando de cidade em cidade, de baile em baile, de boa ação em boa ação, mas este momento marcante passa muito rapidamente no livro (pelo menos na minha opinião, e se comparado com outros livros do Hesse), e logo voltamos a ver sua vida em movimento, sem que este conflito tão típico dos contos de Hesse esteja marcadamente presente.

Se, por um lado, não acho surpreendente que a história não seja muito conhecida, por outro, acho uma pena, por que o sofrimento menos intenso do personagem principal faz com que os outros aspectos da vida de um andarilho sejam tratados com maior sensibilidade e atenção. Em vários momentos da história, Knulp encontra velhos amigos, agora casados e estabelecidos como mestres em alguma profissão, que lhe perguntam "e tu, por que não fez o mesmo? Por que tu preferiu essa vida de vagabundo, sempre a andar por aí, sem aprender uma profissão, sem se tornar um cidadão de bem?" Por um lado, estes amigos querem muito o bem de Knulp, que por isso sempre encontra pouso durante os rigorosos meses de inverno, e lhe fazem esta pergunta por que acreditam que esta é a única maneira de ser feliz. Mas, por outro, existe a inveja de estar preso em um único lugar, a único destino. Ao contrário deles, Knulp pode viver livre e como bem entende.

Entretanto, mesmo para o personagem principal o mundo não é preto e branco, e mesmo para ele existe a contradição e o paradoxo. Pode ser que ele sempre consiga responder àquela pergunta, ou evadi-la de maneira engraçada, mas o fato é que nem ele tem certeza de ter feito a coisa certa. Não teria sido melhor permanecer em uma só cidade, casar-se com uma mulher direita, e aprendido uma profissão, como todo mundo ao seu redor fez? Teria ele sido mais feliz? Talvez. Mas, se isto tivesse acontecido, quem teria levado alegria e bondade de um canto a outro, na velocidade de seus pés? No fim, Knulp confronta-se com seus pecados, e os coloca diante de Deus, para que Ele o julgue. E, no fim, é Ele quem o absolve. Knulp pode não ter sido um mestre em nada, contudo, ele foi um razoável tocador de gaita, um bom dançarino e alguém cuja companhia sempre foi agradável, e que, em alguns instantes, fez o mundo de alguém mais feliz. Não seria este seu destino: tornar-se mestre em não ser mestre em coisa alguma? Não sei.

O livro me encantou por vários motivos, alguns dos quais eu já expliquei aqui. Porém, o principal deles é o que me faz gostar de toda a obra de Herman Hesse: ela é mais um chamado à seguir o próprio coração. Batido e clichê, eu sei, mas não serão as coisas mais importantes em nossa vida justamente as mais repetitivas, como amor, amizade, carinho e compaixão? Na minha opinião, Knulp, tanto o livro, quanto o personagem, vivem estes ideais, da forma como eles melhor conseguem vivê-los, e este é seu grande valor, independente de terem feito grandes conquistas no mundo ou não.

Considerações filosóficas de final de tarde sobre educação

Atendendo muitos adolescentes, eu fico impressionado com a atitude que muitos pais têm em relação ao comportamento dos seus filhos. Quando eles vêm falar comigo, sempre fazem questão de dizer "doutor, eu dou tudo pra ele: roupa de marca, comida da boa, TV da Sky, me esfalfo trabalhando por ele e ele se comporta desse jeito! Tem cabimento, doutor?"

Nessa hora, ao ouvir tão fatídica pergunta, eu me faço de morto, mas normalmente preciso me controlar para não perguntar de volta "mas o senhor ensina ele o que fazer ao invés de agir dessa maneira?" Me controlo, por que tenho medo de desorganizar esse pai ou essa mãe, colocando no colo dele ou dela uma responsabilidade muito grande, que talvez eles não percebam possuir: a educação do seu filho.

Não quero defender apenas um lado aqui: normalmente, os adolescentes (e as crianças) que eu atendo fazem coisas terríveis. Mas daí eu pergunto: onde estão os adultos para controlar ela? Quem vai lá, aponta o que está errado e ensina como fazer direito? Se eu fizesse todas estas perguntas, aposto que duas coisas aconteceriam:

1) O pai/mãe ia me dizer "mas doutor, eu já estraguei todos os meus cintos e chinelos de tanto que bati nesse guri!"
2) Eu ia perder o paciente, por que o pai/mãe ia se sentir ofendido.

Ofender só funciona em um lugar nesse mundo: no seriado House, e olha que mesmo lá ele já teve sua cota de sofrimento por pisar nos calos da pessoa errada. Além disso, ofender seria incorrer no mesmo erro que esses pais incorrem: machucar ao invés de ensinar. Tomar uma surra ensina que não dá pra ser pego, e que se você consegue fazer o que quer sem que ninguém saiba, está tudo certo. Xingar na terapia também: se o doutor não souber, não acontece nada. É uma maneira primária de pensar, e a maioria dos meus leitores devem estar muito acima dela. Entretanto, não dá pra dizer o mesmo de grande parte da população.

Então, pra finalizar esse post, vou dizer algumas pérolas de senso-comum, mas que a experiência como psicoterapeuta me mostraram serem verdadeiras. A primeira é que "pai é quem cria", está lá, presente em nossos sucessos e também em nossos fracassos. A segunda é "bater não é educar" - se surra adiantasse alguma coisa, os presídios estariam cheios de santos e almas iluminadas, e não seriam considerados os piores lugares para se passar a vida. Terceiro, o ensino mais eficaz é o exemplo, a presença. Eu posso fazer meus filhos lerem vários tratados filosóficos sobre Ética, mas se eu não mostrar, através do meu comportamento, como colocar isso em prática, tudo o que eu vou estar fazendo é ensinando eles a justificarem os próprios erros. Justificativas normalmente não servem para nada, por que elas normalmente visam tornar correto o incorreto, ao invés de corrigi-lo e mudá-lo. E, em quarto e último lugar, o que vale para meus (no momento hipotéticos) filhos, vale para meus pacientes também: se eu quero que eles ensinem seus filhos a serem mais educados, eu tenho que ensinar da maneira que eu considero correta.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Osama e a Primavera dos EUA

Então, Osama morreu. Nessas alturas do campeonato, isso não é novidade para mais ninguém, considerando que esta notícia já deve ter aparecido umas 15 vezes na programação normal da Globo (sem contar as chamadas do Plantão da Globo, a Globo News e as filiais regionais), e agora, ao invés de meramente passar a informação adiante, já nos damos a liberdade de emitir pequenos comentários a respeito deste acontecimento histórico. Toda vez que falamos do Osama, falamos o que nós achamos disso tudo. Teoricamente, damos a nossa opinião "pessoal". Falo "teoricamente" e coloco o adjetivo "pessoal" entre aspas por que as opiniões que correm por aí são tão similares que não consigo acreditar que todo mundo falando sobre a morte do Osama e os aspectos políticos de fato formulou sua opinião por conta própria, e sim foram à mesma fonte descobrir o que eles precisavam achar.

Em outras palavras: todo mundo fala a mesma coisa sobre a morte do Osama e sobre os Estados Unidos, e num país com tendências esquerdistas e anti-imperialistas como o nosso, o comentário mais comum que eu vi por aí é o bom e velho "Fuck the USA." Ele pode variar a forma e o conteúdo, mas a função é sempre a mesma: falar mal dos Yankees. E eu, que vivo em um ambiente particularmente esquerdista e anti-imperialista, ouço bastante disso. Eu não tenho nada contra a esquerda, muito menos contra a posição anti-imperialista (o que quer que seja isso). Em muitos casos, eu acabo concordando com o que dizem a respeito dos EUA: cadê a foto do corpo do Osama? Não foi o governo dos Estados Unidos quem armou o Talibã e as guerrilhas do Bin Laden para lutarem contra os soviéticos? Não fizeram uma série de escolhas políticas antidemocráticas e antiéticas no Oriente Médio de apoiar ditadores com base em quão amigáveis eles são e não quão respeitosos eles são de seu povo? Pois é, eu concordo com tudo isso, e eu poderia escrever um post só sobre como os Estados Unidos da América são uma superpotência opressiva e que só se importa com seu bem estar. Mas eu não vou fazer isso, por que outros blogueiros já devem ter feito esse serviço por mim, de maneira muito mais competente e dedicada do que eu jamais faria.

O que eu quero falar nesse post aqui não é sobre política: é sobre afeto. Diferente da maioria dos meus colegas esquerdistas e anti-imperialistas, eu morei nos EUA, e por isso eu acho que consigo ver os EUA para além do seu governo, e lembrar que existe um povo morando lá. Encontrei esse link aqui em alguma lista de sites por aí, e alguma coisa nas fotos e nos títulos me fez sentir alguma coisa que estava adormecida à muito tempo. "Osama está morto" diz o site "e é primavera na América", que traz trinta fotos da chegada da primavera ao distante país do norte. Eu vivi isso quando morei lá, e só agora eu percebo quão importante é essa época do ano. Depois de talvez três ou quatro meses escondidos em casa, o gelo começa a derreter e os estadounidenses (eu sou chato com essa coisa de "americano", por que também sou meio esquerdista e anti-imperialista) finalmente podem sair de casa, tomar banho de piscina, se jogar na grama e tomar banho de sol. Olhem para as fotos e me digam: tem alguém fazendo alguma coisa que a gente não faça aqui no Brasil? São patetas, são idiotas, mas são pessoas, e elas também querem ser felizes.

Junto com a neve, outra coisa derrete: o medo. Um dos comentários que ouvi a respeito de todo esse episódio é que "sair pra comemorar a morte de alguém são dez passos atrás na evolução." Talvez seja mesmo. Contudo, quem saiu para as ruas de Washington, Nova York e outras cidades comemorar a morte do líder terrorista Osama bin Laden não saiu para comemorar a morte de uma pessoa, e sim celebrar o fim do medo. Nos últimos dez anos, todos os Estados Unidos se viram cobertos por uma sombra, uma ameça indefinida e por isso muito mais assustadora, que podia se esconder em qualquer canto, e atacar qualquer lugar. Osama era só um homem, mas era o homem que encarnava essa sombra. Agora que ele foi morto por soldados estadounidenses, parece que a sombra morreu junto com ele, como que exorcizado. "É só ilusão" dirão os comentaristas "a Al Qaeda vai vir com mais força ainda agora, e eles vão voltar a ter medo outra vez." É bem provável que sim. Contudo, meu apego àquele país me faz querer acreditar que não, que a morte de bin Laden deixou o mundo mais seguro, e que a sombra morreu de fato, ou pelo menos ficou severamente ferida com esse golpe, por que eu não penso nos Estados Unidos apenas como uma organização com um exército comandada por um cara chamado Obama, e sim como uma nação, composta por pessoas que sofrem tanto quanto eu, e pensar que elas estão mais felizes e tranquilas agora que seu maior inimigo não pode mais atingi-los também me faz sentir mais feliz.

Sei que, do outro lado do mundo, alguma mãe chora por seu filho morto por demônios americanos, e o sofrimento dessa mãe é tão grande e importante quanto o sofrimento que os EUA passou nos últimos dez anos. Só que eu acho que já existe gente o suficiente na internet brasileira para falar sobre essa dor, e muito poucos para falar sobre a dor yankee.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

As Dimensões da Personalidade

Podemos fazer piada a respeito dos psicólogos e como eles estão sempre analisando os outros e emitindo diagnósticos, mas o fato é que todas as pessoas fazem a mesma coisa - elas coletam informações, julgam e tiram uma conclusão a respeito dos outros. A diferença dos psicólogos é que eles ativamente procuram ferramentas de avaliação mais eficazes do que o senso comum normalmente utilizado. Isso é "teorização" - a criação de teorias. De certa forma, o senso comum é a teoria que surgiu da experiência das pessoas normais, e da compilação dos dados coletados por estas ao longo de várias e várias gerações. Até certo ponto, ele é útil e nos ajuda a nos guiarmos pela sociedade, e até mesmo a nos mantermos vivos. Porém, o senso comum perde grande parte de sua validade em questões mais finas, onde é necessário maior critério de observação do que a sua avó percebeu quando passou de ônibus no bairro pobre da cidade.

E é aqui que entram os psicólogos, sociólogos, antropólogos e outros cientistas envolvidos no estudo do comportamento humano: nós desenvolvemos modelos conceituais utilizando métodos bastante refinados, como a experimentação, a observação sistemática, a pesquisa-ação, a pesquisa genética e a comparação com outras espécies de mamíferos. Cruzando e analisando todos os dados assim coletados, podemos criar teorias muito mais refinadas e capazes de predizer comportamentos do que as nossas avós conseguiam (por mais sábias que fossem).

Uma das teorias que mais gosto é a utilizada pela Terapia Multimodal. Ela foi desenvolvida por Arnold Lazarus na metade do século passado, e postula que a personalidade humana é composta por sete dimensões: Comportamento, Afeto, Sensação Corporal, Imaginação, Cognição, Relações Interpessoais e Biologia. O que eu gosto nesta teoria é, além de sua simplicidade e abrangência, sua aplicabilidade: não só vários tratamentos adequados podem ser planejados com base nela, como também leigos podem utilizá-la para melhor compreender os outros seres humanos ao seu redor.

Partindo de uma perspectiva analítico-comportamental, onde tudo o que uma pessoa faz é considerada como comportamento, cada dimensão da Teoria Multimodal é uma classe comportamental. Em outras palavras, cada dimensão é um tipo de coisa que nós fazemos. Trocando em miúdos, a modalidade do comportamento engloba tudo o que nós fazemos com nosso corpo e os outros possam ver, como caminhar, falar, pular e escrever. O afeto são todas as emoções, sentimentos e humores que sentimos. A sensação corporal é o que sentimos dentro do nosso corpo. A imaginação e a cognição são aquilo que chamamos de "mente" - a primeira é responsável pela criação e manipulação de imagens que só nós vemos, como rever acontecimentos passados e ensaiar cenas futuras, e a segunda é responsável pelos nossos julgamentos, avaliações e crenças. Já as relações interpessoais são todos os comportamentos envolvidos no trato com outras pessoas, e, por fim, a biologia é todo nosso funcionamento corporal, bem como a maneira como cuidamos dele (alimentação, exercícios, uso de medicação e drogas). Como os leitores mais atentos devem ter percebido, existe muita sobreposição entre as modalidades, sendo às vezes impossível distinguir entre elas. Porém, segundo Lazarus, isso é tanto esperado como necessário. Apesar de dividirmos a personalidade em aspectos para melhor compreendê-la, ela é, em última análise, uma estrutura e um processo único e total, e mais importante do que classificar uma manifestação humana corretamente como sendo "Cognição" ou "Interpessoal" é menos importante do que levá-la em consideração na hora de realizar o diagnóstico.

Entretanto, mesmo sendo um processo único e total, nós percebemos fenômenos diferentes dentro dela, e nos são úteis estas diferenças. A principal delas, na minha opinião, é a Hierarquia das Modalidades. Todos nós temos em nossa personalidade as sete dimensões citadas acima. Contudo, algumas serão mais prevalentes do que as outras, e se manifestarão primeiro ou com mais força. Por exemplo, pessoas que vivem no "mundo da lua " teriam como principal modalidade a Imaginação, enquanto que a modalidade Comportamento ficaria bem abaixo na hierarquia. Outro exemplo, que Lazarus dá em um dos seus livros, é a ordem de ativação modal. Na Terapia Cognitiva elaborada por Aaron Beck, nós primeiros temos um pensamento, que elicia um sentimento, e então agimos. Para Lazarus, as coisas são mais variadas e complicadas que isto. Uma pessoa poderia ficar ansiosa ao assistir uma tragédia na TV por que imaginou algum familiar entre as vítimas, sentiu uma sensação de peso no estômago, julgou esse peso como um sinal de que alguém morreu, e então se entupiu de remédios para controlar o nervosismo, enquanto outra ficaria ansiosa por que primeiro sentiu o peso no estômago, fez um julgamento e então pensou na família toda morta. Apesar do processo ser parecido, o tratamento terá que ser completamente diferente para cada uma destas pessoas, levando em consideração como elas reagem ao mundo.

Este jeito de ser é historicamente determinado. Tomemos este excelente blogueiro que vos fala como exemplo. Penso que a minha modalidade primária é a Imaginação - hoje mesmo quase tive um treco ao imaginar uma perna necrosada (yuk). É razoável acreditar que eu nasci com essa predisposição, mas o fato de meu pai ter me levado para ver todos os filmes da saga Star Wars (além de alguns de Star Trek e toda a série Smallville), bem como me incentivado a ler livros de aventura e coisas parecidas me parece muito mais relevante, por que fortaleceu minha capacidade de criar imagens e ser afetado por elas. Ignorar isso em um tratamento comigo seria basicamente ignorar a maneira mais eficiente de lidar com meus problemas. Outras pessoas, obviamente, vão ter históricos diferentes do meu, e muito provavelmente terão modalidades primárias diferentes da minha, e não só o tratamento, como também viver com elas, será bastante diferente.