
sexta-feira, 27 de março de 2009
Fixação na Fase Oral

quinta-feira, 26 de março de 2009
Músicas Instrumentais
Como faz tempo que não posto vídeos, aqui vai uma música bacana do seriado Samurai X.
quarta-feira, 25 de março de 2009
Filme Aleatório da Semana
- E agora, Boiadeiro, o que vai ser?
Para finalizar, gostaria de dizer que não foi um filme ruim. Na verdade, ele tem muitos méritos, entre eles o de não me entediar profundamente ou me causar espasmos de raiva por ser profundamente estúpido, e em vários momentos do filme eu achei que estava muito bem feito. O próprio Daniel se saiu bem. E digo mais: se ele parar de ficar se vendendo para os filmes do Renato Aragão e entrar em uma escola de atuação séria, ele bem que poderia se tornar o Clint Eastwood brasileiro. Não acredita em mim? Nem eu. Mas depois que a época dos faroestes passou, ninguém dava nada pelo Clint Eastwood, enquanto que hoje muitas pessoas fazem fila para puxar o seu saco septuagenário. Se eu errar minha previsão, ninguém vai se importar, mas se eu acertar, vou fazer questão de mandar esse texto para toda a internet quando ele ganhar o
terça-feira, 24 de março de 2009
Difícil Harmonia
Treino Kung Fu duas ou três vezes por semana. Costumeiramente, vou nas terças e quintas no horário das 21 horas, depois que todas as aulas já acabaram e eu posso fazer o que bem entendo. Treinar me faz bem, por motivos e de maneiras demais para detalhar aqui. Contudo, de tempos em tempos, sou forçado a não ir para a academia e ficar em casa estudando ou fazendo algum trabalho para a faculdade. Hoje, por exemplo, resignei-me a ficar em casa para ler os textos para a disciplina de Psicologia Positiva, que é amanhã de manhã, e por isso, vou ter que transferir meu treino para sexta-feira.
Também há um outro lado nessa história - quando eu uso a faculdade como desculpa para minha preguiça de ficar jogado no sofá da sala olhando para o nada ao invés de sacudir minha inércia com o Kung Fu. Costumava fazer isso mais em Caxias do Sul, quando era apenas um estudante secundarista, e me deixava encantar pelas tardes inteiras vazias de atividades e cheias de ócio. Naquela época, eu podia fazer isso sem me sentir muito mal, mas agora, sinto um mal-estar muito grande por deixar a inércia me vencer e me manter parado. Talvez seja razoável dizer que sou muito mais saudável hoje, biopsicossocialmente falando (credo, que palavrão), e que os efeitos desagradáveis da minha preguicite apenas ficassem mascarados por um estilo de vida mais pobre.
Creio que progredi muito desde então na tarefa de conquistar a mim mesmo e meu comportamento, mas isto se deve aos meus esforços contínuos de treinar, de me disciplinar, de fazer o que me proponho a fazer, e isso não se restringe apenas ao Kung Fu ou aos estudos, mas a tudo. Se parar por um tempo longo o suficiente, os bons hábitos desaparecerão e em seu lugar surgirão outros, mas acomodados e pobres. E aí é que está: não me considero grande coisa em termos de disciplina ou força de vontade, mas eu nunca parei de treinar, desde meu primeiro ano do ensino médio até agora, mesmo que tenha sido sempre aos trancos e barrancos, tropeçando agora e me levantando depois. Talvez eu nunca alcance o nível onde a disciplina se torne absoluta e a vontade suprema, mas vou indo nesta direção, passo a passo, com autocontrole e harmonia cada vez maiores.
domingo, 22 de março de 2009
Vida Dura (Parte 22)
Pode parecer piada (e se não parecesse, não estaria escrevendo a respeito disso aqui), mas cozinhar ovo é mais difícil do que se pode imaginar. OK, é só colocar os ovos na água e pôr para ferver, mas como eu vou saber que já posso desligar o fogão e tirá-los da panela? Geralmente quando tenho uma dúvida dessas ou eu pego o telefone e ligo para minha mãe perguntando da forma mais objetiva possível, ou pesquiso no Google. Este último, apesar de não ter o carinho de mãe, é anônimo, e poupa muitos constrangimentos (por que, convenhamos, cozinhar ovo é provavelmente o nível mais baixo de conhecimento culinário).

E, não sendo isso o bastante, eu encontrei um blog chamado Culinária Masculina, e que tem por objetivo explicar "tudo o que um homem sempre quis saber daquele cômodo cheio de azulejos que não é o banheiro", mas que até o advento da internet não tinha coragem de perguntar para ninguém.
Para minha grata satisfação, um dos posts desse blog era justamente sobre a arte de cozinhar ovos. O texto falava das coisas simples, mas não tão óbvias para nós, turistas da cozinha, sobre esta refinada prática, e elucidava minha principal dúvida: 15 minutos e ficava pronto. Com este conhecimento em mãos (e considerando que cozinhar ovos no microondas deve ser o equivalente culinário de colocar Mentos numa garrafa de Coca-Cola), enchi a leiteira de água, coloquei os ovos e liguei o fogo. Diferentemente dos pastéis e demais frituras, que demandam a presença constante do cozinheiro, quando se cozinha algo pode-se abandonar a comida ao seu próprio destino e ir fazer alguma outra coisa, até que ela fique pronta. No meu caso, fui para a sala e fiquei lendo. Apesar de mais confortável do que os pingos de óleo fervente que voam para todos os lados quando se frita pastéis, a experiência de esperar os ovos cozinharem é muito mais perturbadora, pois é inevitável escutar o barulho da água borbulhante, os ovos colidindo uns com os outros e pensar "será que essas porcarias não vão explodir e esmerdalhar encher a cozinha de dejetos?" (não seria a primeira vez que faço algo parecido na cozinha).
Depois de 15 minutos passados, tirei os ovos do fogão, e comecei o lento processo de descascá-los. Este ponto marca a passagem da fase dramática do processo para a fase patética, pois meus esforços podem muito bem serem assim qualificados. Começou na hora de despejar a água quente na pia e deixar os ovos esfriarem, tarefa que imaginava demandar muito tato e delicadeza, pois os ovos poderiam se quebrar. Tirei a leiteira do fogão e equilibrei-a na borda da pia. Como o cabo por onde a segurava estava muito quente, peguei um paninho para segurá-la sem me queimar. Isso acabou se provando mais inútil do que o imaginado, pois acabei esbarrando na leiteira e derrubando-a dentro da pia. Apesar da lambança, foi até melhor deste jeito, pois me poupou o trabalho de ficar segurando a panela como alguém segura um recém-nascido (metaforicamente falando, pois bebês não saem de fábrica com alças plásticas. Infelizmente).
Peguei os ovos, coloquei-os novamente na leiteira, e a enchi de água fria, pois era essa a sugestão do Culinária Masculina para que esfriassem. Passado mais um tempo (preciso dizer que fui para a sala ler de novo?), comecei a descascar os ovos. O que é muito, muito chato, pois ficam pedacinhos de casca, bem pequenos, presos no ovo, que não podem ser removidos sem destroçar um pedaço da clara. Além disso, é um trabalho repetitivo e que não permite quase nenhuma abordagem mais criativa. Quero dizer, eu até poderia inventar um jeito mais emocionante de tirar a casca, como jogar os ovos na parede, mas isso implicaria em mais sujeira, que implicaria em mais faxina por minha conta, que é coisa que eu evito sempre que possível.
Enfim, segui assim, tirando tanto quanto era possível da casca dos ovos. Tinha planejado guardá-los para fazer sanduíches mais tarde, mas como estava com fome e sou impaciente, simplesmente os comia quando considerava que já estava descascado o suficiente (não que eu não tenha pensado em comê-los com casca mesmo. Essa porcaria deve ter cálcio, ou alguma coisa saudável do genêro e que justificaria seu consumo). Enquanto comia o terceiro e último dos ovos cozidos, saí para a área de serviço para respirar o ar da noite, e senti um cheiro de comida vindo de algum apartamento mais abaixo. Era o cheiro de uma refeição completa, feita por alguém que domina minimamente os preceitos da culinária. Dei a última mordida na minha saborosa janta e pensei "merda. Um dia eu aprendo a cozinhar".
sábado, 21 de março de 2009
Vida Dura (Parte 21)
sábado, 14 de março de 2009
Vida Dura (Parte 20) - Andarilho e seus pastéis
Hoje, depois de um treino de Kung Fu relativamente cansativo, fiquei com fome, e pensei que comer alguns pastéis de novo não seria má idéia. Contudo, hoje a conjuntura doméstica não era a mesma do outro dia, pois minha mãe, como a boa esposa que é, voltou para Caxias do Sul para passar o final de semana com meu pai, o que torna a opção de entrar no apartamento esperneando e berrando até conseguir comida ineficaz (mas não impraticável - eu poderia fazer isto de qualquer jeito, mas dependendo dos decibéis empregados, eu poderia ser internado lá onde eu deveria fazer estágio). Mesmo assim, a idéia de comer um pouco de fritura no jantar era boa demais para ser abandonada, por isso, depois de certo tempo em devaneio, concluí que eu mesmo poderia fazer meus pastéis! Afinal de contas, tinha observado minha mãe preparando-os para mim, e não parecia ser tão difícil, aliás, parecia ser bastante fácil. "Que mistério existe em fritar massa recheada?" pensei, enquanto caminhava pela Lima e Silva, já saboreando os quitutes que ainda havia de fazer. Aaaah, este jovem gafanhoto iria aprender na marra que a coisa é mais complicada do que parece...
Chegando em casa, conferi os ingredientes, os dispus por sobre a mesa e repassei mentalmente o processo: pegar uma massa pronta, colocá-la no prato, recheá-la com queijo, tomate e orégano, dobrá-la e apertá-la com um garfo, para que não se desmanchasse na panela. Fácil, não? Bem, para uma dona de casa com pelo menos 20 anos de experiência em alimentar bebês chorões, deve ser quase uma segunda natureza, mas para um estudante de Psicologia cujas maiores habilidades consistem em devorar livros e treinar, o processo é um pouco mais... complexo. Peguei a primeira fatia de massa, estendi-a no prato e recheei-a. Tudo ia muito bem, até a hora que fui dobrá-la, e percebi que havia como que um plástico envolvendo meu projeto de pastel. É muito legal da parte do fabricante de ter colocado esta proteção a mais em seu produto, para garantir uma maior qualidade mas, porra, não dá pra por o pastel na panela com aquilo em volta! E tirando a camisinha alimentar do meu pastel, derrubei todo o recheio, e não consegui mais fazer com que ficasse do jeito que estava antes. Na hora de apertar com o garfo me atrapalhei um pouco e fiz uns furos um tanto quanto desnecessários, mas o resultado final ficou até que bonzinho. "Ficou bom, mas vou deixar pra fritar por último. Com a prática eu melhoro" pensei, antes de pegar a segunda fatia de massa e recomeçar o processo.
Não foi o que aconteceu exatamente com o segundo pastel. Me atrapalhei mais ainda, e o que saiu foi uma aberração. Rasguei uns pedaços aqui, furei com o garfo um outro naco ali, e, no fim, para deixar aquilo mais decente para ir pra panela, amassei a massa com a mão para tapar os buracos por onde o queijo escaparia. Em outras palavras, saiu um Pastel de Notre Dame. "Tá, ESSE aqui eu frito por último. O próximo vai sair melhor" pensei, mais uma vez. O terceiro pastel, ao contrário dos anteriores, saiu perfeito, uma verdadeira obra-prima. Senti-me como Michelangelo depois de ter terminado o "Davi", e só não bati no meu pastel e disse "Parla!" por que... bem, pastéis não falam, via de regra. Em todo caso, tinha atingido a perfeição, e pude, por breves instantes, acreditar que todos os outros seriam tão ou mais perfeitos que este terceiro. Porém, uma obra-prima é sempre única, e minha ilusão foi violentamente destruída quando destruí além de qualquer reparo o quarto pastel, tentando levantá-lo do prato. Não tinha como amassar tudo e tentar fritar, por que estava tudo uma bela merda. Então, em minha fúria, urrei e comi-o cru mesmo. Dramático, não? São momentos como este que me fazem pensar se não sou adotado, e que um dia meu pai vai chegar para mim e dizer "Andarilho, gostaria de ter te dito antes, mas eu não sou teu pai. Na verdade, teu pai biológico é um ogro, e nós só te achamos abandonado em uma lata de lixo", por que, sério, até uma coisa simples como fritar pastel para mim acaba se tornando um exercício do meu trogloditismo.
Decidi dar um tempo na lambança culinária e ir pro meu quarto. Aproveitei e comi o corcundinha também (só imagino que tipo de gente o Google vai acabar jogando aqui no blog por causa desta última frase). Voltei à carga de "pegar, rechear, dobrar e apertar" só depois de quinze ou vinte minutos, quando já tinha suplantado a memória do meu mais recente fracasso com as bobagens que procriam na internet e superado tamanho trauma. Foi normal, ou pelo menos tão normal quanto poderia ser. Alguns pastéis saíram melhores, enquanto outros acabaram mais esburacados do que gostaria, mas estavam prontos. Só faltava fritá-los. Neste ponto, comecei a repensar a genialidade de cozinhar minha própria junk food. Frituras envolvem óleo fervente, substância cuja fama não é devida a suas propriedades terapêuticas. OK, não é tão difícil assim fazer fritura, mas era exatamente o que eu tinha pensado a respeito de fazer pastéis como um todo, e não era como eu esperava. Já podia até imaginar a cena: eu entrando no HPS, me dirigindo ao guichê de atendimento e dizendo "oi moça, tudo bem? É o seguinte, eu tava lá em casa fritando uns pastéis, e no vuco-vuco da coisa acabei derrubando óleo fervente nas minhas costas. Tem como colocar um band-aid ou coisa assim?", e a
OK, OK, minha imaginação é fértil e eu tenho um gosto pelo absurdo, e sei que isto dificilmente aconteceria, mas eu realmente considerei a possibilidade de comer todos os pastéis crus mesmo. Mas esta idéia, além de me fazer imaginar outra cena no HPS que acabaria divertindo muitos médicos em um congresso de Coloproctologia, era admitir que eu fora derrotado pela cozinha, mais uma vez. Não, não iria dar o braço a torcer: se o Obama pode mudar o mundo, eu podia fritar pastéis sem sofrer desfigurações. Eu ainda corria o risco de realizar alguma proeza e me queimar todo, mas para casos como este é que existe o
Como vocês podem imaginar, não foi tão dramático quanto fiz parecer. Para ser franco, foi até que bem ordinário. Fui meio estabanado, voaram alguns pingos de óleo fervente na minha mão por causa da água dos tomates que escorreu para fora dos pastéis, tostei eles um pouco mais do que gostaria e, no fim, sentei-me e comi. Para minha grata surpresa, pastéis fritos são melhores do que pastéis crus, apesar de conterem mais gordura saturada. Só isso, nada de morte e dor em proporções épicas. A batalha com a panela está acabada, e agora, só falta resolver um outro problema de cozinhar a própria comida: lavar a louça e limpar a cozinha, mas isto fica para outro post.
Hey, McFly!
Só que, aparentemente, esse gadget, aparentemente inútil, faz mais do que comparar um site com o outro: ele também te permite receber e-mails que nem sequer foram enviados.

Esses filhos da puta ainda vão conquistar o mundo.
sexta-feira, 13 de março de 2009
Entre a Ação e a Inação
Caímos então no outro extremo, que foi muito bem formulada por algum cidadão ocidental, em algum momento da história, que proferiu as profundas palavras "se nada der certo, viro hippie". Não é uma idéia tão absurda ou pouco considerada quanto possa parecer. Lembro-me de, certa vez, durante uma aula no segundo ano do ensino médio, uma colega minha dizer que já considerou seriamente a possibilidade de virar freira e não ter que se preocupar mais com a vida - exceto com as orações matinais. Sedutora e atrante como parece, a acelerada vida do Ocidente muitas vezes nos faz olhar para aqueles chineses velhinhos fazendo Tai Chi em praça pública com certa inveja. "Ah! Isso sim é vida!" podemos ter exclamado um domingo desses, quando a Glória Maria ou alguma outra repórter celebridade fez alguma série de reportagens sobre a vida no Extremo Oriente, mas creio que poucos tenham realmente largado tudo o que tem aqui no Brasil para ir viver em Pequim para fazer lentos movimentos circulares. Não... isso daria trabalho demais.
E é aqui que minha consciência leva-me à um paradoxo: a mais vigorosa e enérgica ação vem sempre acompanhada da mais calma e meditativa contemplação. Não é algo que possa ser expresso de forma clara e cristalina em palavras, pois deve ser vivido, e as palavras corrompem a experiência pura. Percebi isto ontem, com o treino de Kung Fu. No tempo livre que dispunha antes de ir para a academia, comecei a ler um livro intitulado "Wu Wei: A sabedoria do não-agir", escrito por Henri Borel sobre este misterioso Wu Wei, e o que li entristeceu-me profundamente, pois pensei que nunca poderia atingir este estado, e que talvez nem mesmo quisesse fazê-lo, pois a maneira como o autor o explicava fazia parecer que o Wu Wei é apenas a arrogância de um homem que se orgulha de não fazer nada. Contudo, conforme treinava, minha tristeza desaparecia, ficando em seu lugar apenas o movimento, e então percebi que, ali, naquele momento e lugar, eu vivia o Wu Wei. A intelectualização da leitura toldara meus olhos para o óbvio! E é ali, treinando Kung Fu, exercitando todos os meus músculos, que o vivo. Movimento-me intensamente, mas no fundo, não estou fazendo nada, pois apenas sigo a corrente do universo que Lao Tsé chamou de Tao.
É um erro considerar que se ficarmos apenas sentados, olhando para uma risonha e gorda figura do Buda atingiremos o Wu Wei, este estado que foi chamado de Satori, Fluxo, Mindfulness, Iluminação e tantos outros nomes, mas é igualmente equivocado crer que o faremos através da volição ativa: é através dos dois, e nenhum ao mesmo tempo. Não entende o que eu digo? Ignore este texto, então. Ele é apenas aparência, e provavelmente tu te enganarás acreditando nele também.
Ô Dotô!
Bem, isso pode parecer nobre e de suma importância para muitas pessoas, mas baseado em minhas experiências pessoais, posso dizer que isso é perda de tempo. Por que? Bem, esses dias, lá no ambulatório, estava conversando com a mãe de um paciente sobre o transtorno dele, quando ela me perguntou algo como "mas doutor, o que eu faço nesse caso?". Não lembro qual era a pergunta, mas lembro claramente que ela me chamou de doutor. Ontem mesmo, voltando da aula, uma colega minha disse que também fora chamada de "doutora" no estágio dela.
Nem eu, nem minha colega temos diploma em Medicina ou Direito, nenhum de nós dois fez doutorado, e tampouco temos caras de pessoas respeitáveis, pois ambos temos cara de criança. Na hora, pensei "puxa, como é disseminada essa mania de chamar alguém em posição de autoridade de 'doutor'", mas depois, quando percebi que qualquer estagiário pode ser doutor se disser algumas bobagens e prescrever alguns remédios para um paciente qualquer, vi que ser doutor não vale nada, e que ficar discutindo sobre isso é uma perda de tempo. Por isso, de agora em diante, assinarei meus textos como "Dr. Andarilho". Ou "Dom Andarilho", tipo bispo. Sei lá.
Texto escrito pelo genial, maravilhoso e humilde Dr. Andarilho
segunda-feira, 2 de março de 2009
Finais e Recomeços
Desde meus seis ou sete anos, na primeira série do primeiro grau, sentia que o espírito que envolve as férias ou as aulas são distintos como água e vinho. Na primeira manhã que passei em Porto Alegre depois da minha viagem pela Argentina também chovia, mas os pingos de água que caiam sobre mim eram completamente diferentes do que tamborilam pela minha janela neste momento. A chuva, o cheiro das ruas, as pessoas caminhando pelas calçadas e os carros, tudo me trazia a sensação de tranquilidade, sossêgo e contemplação que sentia durante minhas férias e o tempo que passava na praia. Não precisava ir a lugar algum, e minhas pernas, protegidas apenas por frágeis chinelos e bermudas, poderiam levar-me onde quer que quisessem. Hoje, apesar de praticamente não ter aulas, posto que fui fazer um exame médico de manhã e que a primeira aula da tarde fora cancelada, não tenho mais esta sensação. O que senti esta manhã foi que tinha que estar em outros lugares que não onde já estava. Meu passo tranquilo, sossegado e contemplativo teve que dar lugar às passadas rápidas, inquietas e focadas em alguma coisa mais além do que minha vista alcança, ao pesado sentimento de dever que acompanham a volta às aulas, e minhas pernas, agora firmemente vestidas com botas impermeáveis e calças jeans, voltaram a obedecer meus comandos, pois não mais poderiam levar-me para ver tudo que quisessem, mas sim a cumprir tarefas, uma após a outra, e a própria chuva, seu cheiro, as pessoas na parada esperando o ônibus e os carros passando pela Ipiranga lembravam-me de tudo isto.
Apesar do ar carregado que envolve Porto Alegre nesta volta à vida regrada e certinha que a maioria de nós precisa viver após o Carnaval, não desejo que isto acabe e que as férias voltem. Não por que meu tempo de descanso tenha sido ruim, mas justamente por que ele foi tão bemaproveitado - nele, vivi desde a mais intensa aventura até a mais profunda contemplação; a solidão mais silente de meu quarto até a camaradagem ruidosa dos bares da Cidade Baixa; a dureza dos treinos até o ócio completo; o vento gelado da Patagônia e o calor de um abraço carinhoso. Como diria Viktor Frankl, estas memórias agora estão para sempre guardadas em meu passado, e ninguém as tirará de mim. Mas, por mais belo que o passado seja, nada acontece lá. Tenho agora, diante de mim, o desafio que o futuro me lança agora, com os estágios e as aulas. E é meu dever aceitá-lo.
